terça-feira, 13 de outubro de 2020

‘Teletrabalho’ ou ‘home office’: ilusão vira pesadelo

Mistura de espaço de trabalho com privado.
Mistura de espaço de trabalho com privado.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Você trabalha de sol a sol. É mentira que possa administrar melhor o seu tempo. Mistura seu espaço de trabalho com seu espaço privado.

Não desliga. Já me deparei com 20 emails às dez da noite. Nos fins de semana também.

[Ana, de 61 anos, funcionária pública].

O novo coronavírus serviu de pretexto para trazer de volta uma utopia que no século passado alguns ‘futurólogos’ incensaram sem sucesso nem sinais de rentabilidade: o home office, teletrabalho, ou trabalho a distância através das redes.

Quando, por volta de meados de março, o novo coronavírus forçou o esvaziamento dos escritórios, as velhas profecias voltaram à tona.

O jornal “El País”, versão em português, publicou rica reportagem sobre o caso, registrando que sete de cada dez empresas espanholas enviaram seus funcionários para trabalhar em casa.

Assim, mais de três milhões de pessoas caíram no trabalho remoto durante o confinamento. Quadriplica a pequena proporção que tinha achado conveniente fazê-lo em algum período da semana, em boa medida devido à peculiaridade de suas funções.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calculou que no Brasil 20,8 milhões de pessoas poderiam seguir o mesmo rumo.

Profissionais da ciência e intelectuais já o fazem na Espanha (65% do pequeno número); diretores e gerentes (61%); apoio administrativo (41%); e técnicos e profissionais de nível médio (30%). São casos especiais.

Na mesa de jantar enquanto as crianças pulavam no laptop
Na mesa de jantar enquanto as crianças pulavam no laptop

Mas na crise da covid-19 muitos empregados mergulharam subitamente no teletrabalho.

Eles se encontraram tendo que trabalhar na mesa de jantar enquanto as crianças pulavam no laptop para atividades bem diferentes e dispersivas, observa engraçadamente “El País”.

Atividades que no Brasil só se concebiam no contato pessoal tiveram que deixar de ser “presenciais” — termo que entrou na rotina do dia a dia.

A adaptação súbita ao novo regime trabalhista deveria ser fácil e amena, mas “nem todo mundo está preparado e tem a mesma velocidade”, avaliou a especialista em Medicina do Trabalho Teófila Vicente-Herrero, citada pelo jornal.

Desde logo a saúde deu sinais preocupantes.

A tensão fez irrupção, diz a doutora, causou “somatizações, com alterações digestivas, do ciclo do sono e ansiedade por essa má adaptação à nova situação de estresse”.

Naqueles que o faziam por primeira vez “havia desinformação, falta de formação e de tecnologia. Os horários foram quebrados. Em muitos casos, as jornadas são intermináveis e isso gera uma alteração nos ciclos biológicos e nas relações familiares e sociais”.

A saúde dá sinais preocupantes

A repetida propaganda nos mostrava deliciosas praias com sorridentes modelos manipulando alegremente um laptop sobre os joelhos. O lazer, prometia, fazia do trabalho mais uma fonte de distensão.

Mas agora chegou a realidade: as pessoas passaram a trabalhar mais, mais desordenadamente e em condições desgastantes.

Até duas horas diárias a mais na Europa e três nos Estados Unidos, segundo NordVPN, uma fornecedora que conecta computadores domésticos aos servidores das empresas.

E o lírico trabalho com maior tempo livre e mais gostoso acusou o golpe. Um de cada quatro empregados teve que sacrificar seu tempo livre para tarefas a toda hora, mediu a Eurostat, serviço de estatística da União Europeia.

O sofá do lar ou a cadeira da cozinha que outrora era local de repouso ou refeição virou mistura de colegas pedindo serviço e os filhos brincando acima.

O sono foi um dos grandes prejudicados.

Está sendo uma das piores experiências da minha vida. Tenho três trabalhos. Tarefas escolares de um lado, teletrabalho de outro, as coisas da casa...

já fiz videoconferências de capacitação com pessoas nada interessadas, que não sabiam como fazer, ou não tinham dados no celular, ou davam risada.

E meus filhos aparecendo.

[María Tovar, 36 anos, orientadora de emprego em uma empresa. Dois filhos, de oito e cinco anos].

Com o teletrabalho a vida profissional e a familiar virou uma salada russa
Com o teletrabalho a vida profissional e a familiar viraram salada russa

O Centro de Inovação da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV-EAESP) constatou que 56% de 464 entrevistados apanharam muito ou moderadamente para dosar a vida profissional e a familiar na salada russa que aprontou o home office.

Para 45,8% o trabalho ficou mais pesado, 34% perderam ou diminuíram a motivação, e 36% baixaram a produtividade.

“Não nos adaptamos, pensávamos que trabalhar remotamente era transferir o escritório para nossa casa e pronto.

“Não temos controle da situação, sofremos de estresse crônico. Não há descanso”, diz o professor de Psicologia Social da Faculdade de Relações Trabalhistas e Recursos Humanos de Granada Francisco Díaz Bretones.

“Expandimos o tempo e o espaço. Se antes o trabalho estava restrito a um lugar determinado durante certo tempo, isso desapareceu. Trabalhamos sob um guarda-sol na praia, em casa, no escritório, a qualquer hora.

“É a primeiro coisa que fazemos ao acordar e a última ao nos deitar. Não temos períodos de recuperação e de descanso. A recuperação física é muito mais rápida. Mas psicologicamente demoramos muito mais para voltar a um estado de relaxamento.”

“Quando termino uma videoconferência, meu pescoço e meus ombros doem.

“Eu me sinto muito exposta e, ao mesmo tempo, tenho falta de informação.

“Para uma pessoa introvertida e observadora como eu, o Zoom tem todo o lado ruim de reunir você com gente na vida real, mas nesses encontros cara a cara há muitas coisas que aqui [em uma videoconferência] não estão presentes”

[Carly Micó, 42 anos, tradutora e editora].

O Zoom, site lançado às nuvens físicas e virtuais como endereço ideal de videoconferência, passou de 10 milhões de participantes diários em dezembro para 300 milhões na crise.

Os técnicos beneficiados o põem mais uma vez nas nuvens: “economizamos tempo, não precisamos nos deslocar, podemos nos comunicar de forma não verbal e trabalhar bem compartilhando a tela”, diz Jeremy Bailenson, do laboratório de Interação Humana Virtual da Universidade de Stanford, citado por “El País”.

O professor Díaz Bretones garante que as reuniões virtuais são mais eficazes: “Otimizamos melhor o tempo, pois suprimimos parte do contato social e nos concentramos mais no desenvolvimento da reunião. No Zoom você pode fazer outras coisas”, um elogio bastante contraditório.

No encontro ‘presencial’ o que seria do diretor que se dedica a fazer outras coisas enquanto seu chefe lhe fala?

Mas a verdade é que os professores obrigados a dar aula deploram a “fadiga do Zoom”.

Bailenson explica o que ocorre quando o participante está diante de um monte de caras na tela do computador:

“Em uma reunião presencial com uma dezena de pessoas, o tempo que passam se olhando mutuamente nos olhos é muito curto. Quando isso ocorre, não dura mais que poucos segundos.

“Com o Zoom, uma reunião com o mesmo número de participantes transcorre em uma grade de rostos e todos olham da tela para você o tempo inteiro.

“Isso pode ajudar na produtividade, mas tem um custo. As pessoas se sentem muito incomodadas ao ser observadas permanentemente.

“O cérebro se mostra particularmente atento aos rostos, e quando os vemos grandes, interpretamos que estão muito perto. Nosso reflexo de luta ou fuga reage.

“Em um estudo que fizemos em Stanford, descobrimos que você encolhe fisicamente quando se expõe a rostos virtuais de grande tamanho. Esse pode ser, em parte, o motivo pelo qual o Zoom é tão esgotador.

“Durante cada minuto que estamos em videoconferência, temos rostos que nos observam a poucos centímetros do nosso”.

Certamente esse estar sendo observado como uma cobaia num laboratório não deve ser agradável.

As reuniões virtuais causam esgotamento especial
As reuniões virtuais causam esgotamento especial

Eva Rimbau, especialista em teletrabalho e professora de Recursos Humanos e Organização da Universidade Aberta da Catalunha, propõe artifícios que soam estranhos como “a comunicação assíncrona” em que “uma pessoa deixa sua informação e outra a encontra depois”. Podem se imaginar as confusões que isso pode gerar?

Para aliviar o esgotamento causado pelas reuniões virtuais pode-se desligar a câmera. Mas essa não está ai para ficar ligada?

As interpretações do desligamento podem pirar a ideia do desligado. O que os outros achariam num contato de trabalho presencial se você vira o rosto ou sai sem explicação?

O cansaço da conexão virtual não é a única consequência desses meses de teletrabalho.

O estresse nos faz comer mais e pior, registra a reportagem do “El País”.

A saúde piora: passar 10 horas na frente do computador, interrompendo, caso existisse, nossa rotina de exercícios, afeta também as costas e articulações.

“tudo se altera, níveis de colesterol, açúcar e triglicérides sobem. As pessoas com artrose e com problemas nos tendões tiveram de limitar a atividade, perderam mobilidade”, são testemunhos frequentes.

A principal causa de não comparecimento ao trabalho sempre foram os problemas musculoesqueléticos, e neste ano eles dispararam.

Tenho me sentido solitário. Sinto falta daquela conversa com os colegas sobre assuntos que não são do trabalho, na qual surgem ideias”.

[Arturo, 30 anos, jornalista].

“Perdemos repentinamente o local de trabalho, uma conquista social, voltamos para uma solidão que nos isola dessa cultura do café e da conversa que cria vínculos. (...)

“Nem todos têm a capacidade de voltar-se para dentro de si mesmos, algo que a escrita e a arte exigem. Isso pode se tornar uma ameaça se seu trabalho não for criativo”, diz o psiquiatra Enrique García Bernardo, lembrando que um risco do teletrabalho é o isolamento, que pode ter efeitos depressivos.

O teletrabalho não deveria ser isso, arguem os picados pela velha (e esquecida) utopia do futurólogo Alvin Toffler.

Eva Rimbau acha que os problemas vão ser superados, como se as leis não verificadas da evolução fossem nos curar. Mas no dia de hoje o quadro não é nada bom:

Eva Rimbau: o teletrabalho em crise é um horror.
Eva Rimbau: o teletrabalho em crise é um horror.

“Nossos filhos pararam de ir à escola, diz ela.

“Nós ou nossos familiares ficamos doentes, sem poder sair.

“Muitas coisas mudaram para pior.

“Não podemos tirar nenhuma conclusão além de dizer: o teletrabalho em caso de crise é um horror? Sim.

“Estamos muito cansados, mas o que sentimos agora não representa o que podemos sentir em um teletrabalho normal”.

É inevitável: a mistura do trabalho com as tarefas do lar estressa muito mais, diz Rimbau, citando estudos.

Quem “faz coisas pessoais no horário de trabalho e vice-versa, corre o risco de trabalhar a qualquer hora”.

Acrescem as mazelas da solidão: se você não está no escritório, não é visto, e isto inspira não só trapaças, mas às vezes suspeitas injustas.

“Em empresas onde alguns trabalham à distância e outros não, os trabalhadores remotos receberam menos promoções, menor capacitação e menos feedback sobre seu desempenho por estarem fora de vista”, afirma Rimbau. “Esse risco existe.”

Mazelas da solidão
Mazelas da solidão

Com ou sem benefícios e/ou malefícios, o trabalho remoto entra como um invasor sem considerar os sofrimentos das vítimas.

A empresa Twitter o liberou para seus funcionários e para sempre. O Facebook planeja ter metade de seu pessoal trabalhando à distância em cinco anos. O Google não terá funcionários no escritório até meados de 2021.

Nas empresas espanholas, 41% planejam continuar com o home office. O Governo planeja mais leis trabalhistas para regulamentar essa forma de trabalho.

O projeto inclui a voluntariedade, a flexibilidade e o direito à desconexão.

Numa sociedade sábia e muito moralizada podem-se esperar resultados, mas na nossa, do jeito que as coisas estão, o serviço e o relacionamento humano podem sair muito danificados.

A tribo fazendo sinais de fumaça para se comunicar pode ser o final da trajetória, segundo os filósofos que levam a sério ao profeta da comunicação global Marshall McLuhan.


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