terça-feira, 21 de julho de 2020

O tele-ensino mata o ensino e bloqueia o aprendizado

A informação estereotipada a distância pode produzir as reações mais desencontradas e danosas
A informação estereotipada a distância pode produzir as reações mais desencontradas e danosas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Com o Covid-19, a mídia voltou a insistir que o futuro da educação está no tele-ensino e aplicativos, com suas derivações como o tele-trabalho.

Esses elogios entusiastas da interação a distância, entretanto, não resistem à evidência mais primária: o ensino envolve antes de tudo um relacionamento humano entre o mestre e o aluno.

O assunto pegou fogo no Canadá e foi objeto de polêmica no site Pour une école libre au Québec

Um ensino praticado através de uma tela digital mata o relacionamento vital entre o professor e o discípulo.

Essa convivência é tão básica e prévia a qualquer escolha humana que foi elogiada pelos grandes educadores da humanidade na Antiguidade, para começarmos por ai. Falamos de mestres insuperáveis como o filósofo grego Platão.

É preciso louvar, como fez Stéphane Ratti, professor Universitário de Línguas Clássicas e autor de inúmeros livros sobre o assunto, o “trabalho admirável dos professores que nos nossos difíceis tempos desenvolvem tesouros de imaginação para manter o contacto com seus alunos, definindo a natureza profunda e autêntica de uma missão que não pode se reduzir a um ensino a distância”.

O ensino online pode funcionar em circunstâncias especiais. Mas ainda assim carece do essencial que a eletrônica não dá nem pode dar.

Na aula pessoal, o mestre pode perceber a fatiga, a distração, a adesão, as distrações e uma multitude de reações ínfimas, daquilo que se chama “mensagens subliminais da aula” silenciosos ou rumorosos, vindos da classe ou de um aluno em particular, e adequar seu proceder à ocorrência.

Sozinho diante da tela, o estudante não tem quem interprete suas necessidades
Sozinho diante da tela, o estudante não tem quem interprete suas necessidades
E isso tem um valor sem igual.

Nada de mais precioso que transmitir ao ensinando por via oral, adaptando o conteúdo e a forma da matéria ensinada, para torna-la compreensível e assimilável segundo cada caso.

Não há nada de mais belo, nobre e sedutor, diz o site canadense que comentamos.

Se comparamos, que miséria é um jogo de cliques na tela! Outrora houve quem achasse que bastava ir na biblioteca municipal e consultar alguma das inúmeras enciclopédias que acumulam poeira nas prateleiras.

Hoje, a triste cena se repete com um ensino através de uma enciclopédia digital planetária que se chama Internet.

Por que escolher isto ou aquilo dentro de uma massa insondável de dados? perguntava o Prêmio Nobel de Literatura André Gide.

Nós precisamos um guia, um professor de carne e osso porque sem ele “o superficial ofusca o que é mais importante”, respondia o literato.

A pedagogia virtual está viciada de inconvenientes e repousa sobre uma ilusão.

Professor algum, digno desse nome, repete como uma máquina, digital ou não, a matéria que ensina.

Nada de mais precioso que transmitir ao ensinando por via oral
Nada de mais precioso que despertar a inteligência no ensinando por via oral
Pelo contrário, ele sabe fazer pausas nos momentos mais psicológicos para as jovens mentes que estão diante dele.

Ele se adapta às reações, enriquece com exemplos, reflexões, desfaz dúvidas que o olhar dos alunos lhe sugere.

Basta rememorar a imortal cena de Platão ensinando a seus discípulos a ordem da Criação numa conversa em torno da fogueira no interior de uma caverna num dia de frio.

O mestre sabe ensinar assim, e muitas vezes nessas interrupções, na exposição com exemplos, etc., ele aprende também.

Ele não obedece a leis maquinais, mas a regras ditadas humanamente pelo bom senso e a experiência da realidade porque ele não está diante dos automatismos de um smartphone, ou equivalente.

Nessa adaptação ao público real aparece a própria essência da pedagogia e do bom mestre.

O livro vale no nível da literatura, mas no ensino é um instrumento complementar que nunca poderá estar no centro: isso seria enganoso, insuficiente, fraco e no fim de contas, inassimilável, pesado, excessivo e esgotador. Tanto mais uma imensa literatura online.

Há milênios as escolas que formaram as gerações que modelaram o mundo compreenderam que a relação personal entre o mestre e os alunos é decisiva
Há milênios as escolas que formaram as gerações que modelaram o mundo
compreenderam que a relação personal entre o mestre e os alunos é decisiva
O filósofo Nietsche observou em seu curso sobre Platão de 1871 que “um curso apenas escrito é ademais muito burro: ‘Ele não responde às perguntas de quem está devorado pelo desejo de aprender’.

Esse foi um ponto essencial do genial pensador grego. Na sua obra Fedra, o filósofo cria um diálogo didático entre o rei egípcio Thamos e o deus Tot que, segundo a mitologia, inventou a escritura para solucionar as falhas da memória e transmitir o saber.

No diálogo platônico, Thamos, e com ele Platão, condenam a escritura. Por que?

Porque segundo o filósofo, através do diálogo, da troca de opiniões por vezes contraditórias, pela investigação, pelo jogo de perguntas e respostas, no ensino oral reside a natureza profunda da transmissão do pensamento.

Ensinar é como um diálogo liderado por um mestre que, por sua vez, deve saber ser até ingênuo ou irônico, com habilidade, e nunca excludente.

Um curso escrito a distância, impresso ou virtual, é exatamente o oposto, conclui Pour une école libre au Québec.



terça-feira, 7 de julho de 2020

No Ocidente paira o espectro de Lenine

Espírito de Lenine continuou sendo transmitido no Ocidente e hoje atiça inversão de valores.
Espírito de Lenine continuou sendo transmitido no Ocidente
e atiça toda espécie de inversão de valores.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No último dia 22 de abril Vladimir Putin deveria ter sido consagrado como líder mono-árquico de um “czarismo” moderno ainda mais despótico, agravado por uma ditadura vitalícia como não foi sequer a de seu sanguinário xará.

O COVID-19 o obrigou a adiar a entronização ilegítima, que deveria ser legitimada por um referendo falseado.

A data foi cuidadosamente escolhida, porque foi num 22 de abril, há 150 anos, que nasceu Vladimir Ilyich Lenin, o fundador da União Soviética e responsável por uma enormidade de crimes contra o sofrido povo russo e o mundo.

Lenin foi o organizador e criador da tática mais mortífera que a Terra gerou, da estratégia inspiradora das atrocidades modernas oriundas do comunismo soviético.

A influência de Lenin se projeta ainda hoje, segundo a jornalista Karina Mariani, do “La Prensa” de Buenos Aires.

Sua realização — a ditadura do proletariado marxista — continua avançando em ziguezagues e metamorfoses, com a determinação que exigia o Vladimir fundador, apesar de derrotas e crises.

O pesadelo comunista atormenta não apenas alguns países, mas reina no coração de intelectuais e políticos das democracias ocidentais.

Suas doutrinas são ensinadas em universidades de todo o mundo e fazem parte dos manuais que formam milhões de alunos.

No cinema, nas redes sociais e na mídia de massa mundial, ele continua presente.

A União Soviética criada pelo Vladimir cuja múmia é homenageada no Kremlin foi a grande indústria exportadora da morte, o flagelo que Nossa Senhora advertiu em Fátima que se abateria sobre o mundo se este não fizesse penitência.

Milhões morreram de fome por ordem do pai do comunismo
Milhões morreram de fome por ordem do pai do comunismo
Em 1º de fevereiro de 1920, Lenin escreveu a Trotsky: “A ração de pão deve ser reduzida para aqueles que não trabalham no setor de transportes, hoje decisivo”. Foi o início da fome maciça.

A diretriz garantiu a eficácia da repressão: os populares ficaram proibidos de vender, comprar ou trocar seus produtos. Foi a consagração de um poder de vida e morte sobre os habitantes do mais extenso império do mundo — descreve Karina.

O terror que as vítimas nunca puderam esquecer começou a tomar forma pela mão de Lenin, autor do tutorial para a instalação das ditaduras comunistas.


Lenin ficava ofendido quando não se matava suficientemente. Em 29 de janeiro de 1920 — segundo a jornalista —, ele escreveu a Smirnov, chefe do Quinto Exército na região dos Urais:

“Fui informado de que há sabotagem e que os trabalhadores de Iyevsk estão no golpe.

“Estou surpreso que você se estabeleça e não prossiga com execuções em massa. Um bom comunista também é um bom chekista. Nós devemos dar exemplo.

“1) Pendure (e eu digo pendure [enforque] para que as pessoas vejam) nada menos que 100 kulaks (pequenos proprietários de terras), pessoas ricas, bebedores de sangue.

Execuções em massa foram exigidas pelo igualitarismo nivelador leninista. E no Ocidente, os intelectuais esquerdistas fingiam não ver ou aplaudiam.
Execuções em massa foram exigidas pelo igualitarismo nivelador leninista.
E no Ocidente, os intelectuais esquerdistas fingiam não ver ou aplaudiam.
“2) Publique seus nomes.

“3) Pegue todos os seus grãos.

“4) Identifique os reféns como indicamos em nosso telegrama de ontem.

“Faça isso para que centenas de léguas de distância as pessoas vejam, tremam, descubram e digam: ‘Eles matam e continuam a matar kulaks sedentos de sangue’.

“Telegrafe confirmando que você recebeu as instruções. Seu. Lenin”.

Lenin não agiu sozinho: o mundo “progressista”, inclusive o mais culto da Europa e dos EUA, foi solidário com ele.

A intelligentsia mundial continuou a apoiá-lo na pessoa de Stalin e de seus sucessores, nos crimes em Cuba, no Camboja, na Venezuela ou na China.

Nos prelúdios revolucionários de fevereiro a outubro de 1917, as forças políticas não bolcheviques permitiram que os ‘movimentos sociais’ comunistas avançassem.

O golpe de Estado de outubro de 1917 durou até o final de 1991, e se ele caiu foi porque apodreceu de dentro para fora.

Felix Dzerjinsky: “os 'excessos' são da própria natureza da revolução”
Dzerjinsky: “os excessos são da própria natureza da revolução”
A malfadada Checa Comissão Pan-Russa Extraordinária de Combate à Contrarrevolução e Sabotagem, criada em 7 de dezembro de 1917 para extinguir os dissidentes — foi a semente da KGB e da atual FSB. Lenin a colocou sob a direção de Felix Dzerjinsky.

Trotsky escreveu dele:

“Sobre as repressões, Dzerjinsky era pessoalmente responsável por elas (...) estou preparado para reconhecer que a guerra civil não é uma escola de humanismo. (...)

“os 'excessos' são uma consequência da própria natureza da revolução que, por si só, constitui um 'excesso' da história” — cita ainda Karina.

A prosa trotskista continua válida até hoje, justificando atrocidades e os crimes da FSB putinista dentro e fora da Federação Russa.

Em todos os cantos em que o comunismo se impôs ou ainda domina, as liberdades políticas e econômicas foram removidas.

Partidos únicos e economias planejadas condenaram milhões de pessoas a uma fome feroz, à ditadura, ao terror e à morte.

A invasão da privacidade, a denúncia do vizinho, a censura e a espionagem foram as pilastras do sistema que, com adaptações, oprimiu quase um terço do mundo.

O “progresso” mundial comemorou a ascensão dos deserdados na Terra, e Lenin espalhou um igualitarismo e uma falsa solidariedade que não cresceram sem cessar sobre pirâmides de cadáveres e povos destruídos.

Hoje, intelectuais civis e eclesiásticos continuam impregnados total ou parcialmente da utopia assassina, louvando essa tentativa de empoderar os “deserdados na Terra” em congressos de movimentos sociais como os promovidos pelo próprio Vaticano.

As primeiras vítimas da Checa foram os kulaks — agropecuaristas da era czarista, condenados por se oporem ao roubo de suas propriedades.

Os sobreviventes, suas mulheres e filhos, ficaram reduzidos a comer raízes e cascas de árvores.

Silencia-se a existência dos imensos campos de trabalho forçado, ou persegue-se aos que querem falar deles
Silencia-se o universo de campos de trabalho forçado,
ou persegue-se aos que querem falar deles
Por fim, o Partido escravizou quem quer tivesse um pedaço de terra ou um ou dois porcos, ainda que fosse um caboclo miserável que não possuísse outra coisa para comer ou para alimentar a mulher e os filhos.

Negou-se a existência dos campos nazistas até os mesmos ficarem evidentes no fim da II Guerra.

Mas as barbáries soviéticas permanecem intocadas como mausoléus do horror, veladas apenas por um pudico véu que esconde o orgulho dos assassinos em massa empossados pela ditadura do proletariado.

A elite do pensamento ocidental se calou, encobriu o “dano colateral”: afinal, não era esse o preço justificado para a construção do socialismo?

Muitos viam na URSS, como veem hoje na China, a potência que fundará a civilização do futuro.

E no Ocidente, até em cátedras eclesiásticas cantaram o fim do capitalismo consumista e a extinção da sociedade burguesa hedonista e decadente.

Se a URSS desabou — tendo mudado apenas de cor: adotou o verde ecológico —, sobrevive a utopia soviética da desconstrução de estruturas sociais e políticas para criar uma nova civilização.

Restou o sonho tóxico de criar de cima para baixo um homem novo e um mundo novo integrado à natureza, modelado pela eterna evolução da matéria.

A tribo amazônica passou a ser arquetipizada como a horda primigênia das cavernas descrita ebriamente por Karl Marx.

Não há nada de novo debaixo do sol; mudou tão-só a cor e o sobrenome dos Vladimir.

Essas metamorfoses foram previstas, fazem parte da evolução do magma material, única realidade e único deus válido e não espiritual dos homens que renegam qualquer divindade.

Em 1922, quando a sorte da Revolução corria perigo, Lenin insistia que os comunistas deviam mostrar flexibilidade a ponto de estarem dispostos a recomeçar do zero, suplantar a derrota e voltar a um novo assalto.

“O êxito dos êxitos foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo” (Plinio Corrêa de Oliveira)
“O êxito dos êxitos foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso
e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo”
(Plinio Corrêa de Oliveira)
Lenin foi um arauto do ódio eterno e latente de classe contido na ideia doentia da revolução permanente, que brotava nele como uma lava devoradora do abismo infernal.

Embora em 1922 ele já estivesse gravemente paralisado, deu à luz a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS.

E morreu em 1924, escolhendo antes Stalin para continuar seu trabalho.

150 anos depois de seu nascimento, o comunismo continua sendo um pesadelo do qual a humanidade não despertou. E Putin quer recomeçá-lo.

As democracias se mantêm incompreensivelmente insensíveis diante dos crimes comunistas que não cessam, dos desesperados que boiam nas águas do Caribe para fugir de Cuba, dos tiros pelas costas daqueles que tentaram cruzar o Muro de Berlim, dos milhões mortos de fome no Holodomor ucraniano, nos Gulags da Sibéria. Nada as fazem mudar de ideia, conclui a jornalista.

Tamanho é o triunfo do fascínio tóxico de Lenin, que na presente crise global da pandemia vemos reemergir a redução das liberdades e a economia planejada, como teria feito o ‘velho’ Vladimir.