terça-feira, 13 de abril de 2021

Neurocientistas detectam estragos mentais da “vida digital”

Cinco neurocientistas passaram um mês numa região remota e agreste para experimentar males dos artefatos digitais
Cinco neurocientistas passaram um mês numa região remota e agreste
para experimentar males dos artefatos digitais
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Cinco neurocientistas americanos passaram um mês numa região remota e agreste do estado de Utah, para tentar compreender o quanto o uso intenso de artefatos digitais e outras tecnologias cibernéticas mudam o modo pensar e a conduta dos homens.

Eles queriam ver também se um retiro ajuda a reverter os maus efeitos.

A experiência foi em 2010, porém hoje seus resultados estão cada vez mais atuais, sobre tudo com a dependência dos dispositivos virtuais estimulada pela pandemia. A reportagem foi publicada no The New York Times.

Na região escolhida não há antena para celulares e os emails não chegam.

Os especialistas deixaram os laptops na cidade e partiram para uma “viagem ao coração do silêncio” através do rio San Juan que atravessa canhões inóspitos.

Os professores descobriram que dormiam melhor, mesmo em regime de acampamento, e perderam a ansiedade para consultar incessantemente o celular.

David Strayer, professor de psicologia da Universidade de Utah, observou que a atenção, a memória e o aprendizado dos cidadãos modernos estão afetados.

As pessoas perdem a capacidade de prestar atenção, disse. Mas, “a atenção é o ‘Santo Graal’ do problema”, explicou Strayer. “Tudo aquilo que está na sua consciência, tudo o que é lembrado ou esquecido depende dela”.

Para Strayer o estudo ajuda a resolver uma nova gama de doenças além de outras agravadas pelo uso pesado da informática. 

Estímulos digitais diários intensos, explicou o cientista, “dão às pessoas a ideia que estão O.K. quando na realidade elas estão ingressando na categoria de pessoas psicologicamente não saudáveis”. Para Strayer, o problema não é menos grave que o consumo excessivo de álcool ou da obesidade.

Paul Atchley, professor da Universidade de Kansas, estuda o uso compulsivo de celulares pelos adolescentes.

Para ele o uso continuado da informática inibe o pensamento profundo, causa ansiedade, danos diversos à saúde e dependência.

A maré de dados ininterruptos cria uma falsa sensação de urgência que afeta a capacidade das pessoas para focalizar com objetividade os fatos, disse Strayer.

O especialista observou aquilo que o mais simples humano de outrora conhecia, isto é, que a natureza refresca o cérebro.

Na experiência “nossos sentidos mudaram. Eles se reequilibraram. Você presta atenção nos sons, nos grilos cantando, no rumor do rio, nos aromas. Você fica mais conectado com o ambiente que te rodeia, com a terra, antes que com o ambiente artificial da eletrônica”.

“Isto é o que chamavam de férias. É algo restaurador”, acrescentou Todd Braver, professor de psicologia na Washington University de St. Louis (EUA), descobrindo o “ovo de Colombo”.

O National Institute of Health criou uma divisão especializada em estudar as áreas do cérebro atingidas pelas tecnologias audiovisuais.

Os estudos do comportamento mostraram que as pessoas engajadas no multitasking têm perda de produtividade.

“A expectativa de receber e-mails parece consumir partes da memória ativa”, elucida Steven Yantis, chefe do departamento de Ciências Psicológicas e Cerebrais da Johns Hopkins, que estuda os efeitos de surfar entre várias tarefas simultaneamente.

“Com menos memória ativa, você tem menos espaço para guardar e assimilar ideias e, portanto, de fazer os raciocínios que você precisa”, acrescenta o professor Art Kramer, da Universidade de Illinois, que chefia estudos neurológicos que atraíram verbas de dezenas de milhões de dólares.

No fim do dia, os especialistas põem em comum suas sensações
No fim do dia, os especialistas põem em comum suas sensações
Os professores foram registrando suas experiências em longas conversas permeadas de períodos de silêncio, passeios a pé ou em canoa, ou observação do voo dos falcões.

Eles notaram que as ideias fluem num ritmo que mais parecia com o passar das águas do rio.

“Há verdadeira liberdade mental quando você sabe que ninguém vai vir te interromper”, disse Braver.

Qualquer monge medieval teria explicado isto e muito melhor, mas foi preciso chegar ao século XXI para redescobrir esta verdade elementar.

Os outros também comentavam que a viagem foi mais útil que se tivessem ido a hotéis, por vezes lotados de clientes.

“O tempo foi ficando mais lento”, constatou Kramer que de início não conseguia sair sem levar um celular satelital pois aguardava a confirmação via email de um financiamento de 25 milhões de dólares para uma de suas pesquisas.

E os 25 milhões? “Eu não me preocupava com eles. Nem pensava neles”, disse, reconhecendo que, no fundo, era uma preocupação improcedente, pois a aprovação da verba não dependia de sua preocupação.

Na experiência “nossos sentidos mudaram. Eles se reequilibraram
No segundo dia, ele descobriu que estava recolhendo com vagar sua tenda e que perdera a sensação de urgência que o dominava.

Kramer anotou que o grupo ficou muito mais refletido, tranquilo, voltado para a realidade que o rodeava. “Se eu aparecesse assim no trabalho, o pessoal acharia que eu ando desligado”, gracejou.

Braver abandonou o consumo obsessivo do cafezinho e esqueceu-se de ligar o relógio, embora lá não tivesse celular.

Strayer, tido como “crente” na tecnologia, reflexionou: “E se nós concluímos que o pessoal anda fatigado e não aproveita seu potencial cognoscitivo? O que é que poderemos fazer para lhes devolver suas capacidades plenas?” 


terça-feira, 6 de abril de 2021

Perdura o atrativo da Legião Estrangeira

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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Há uma unidade de combate aureolada de prestígio e mistério malgrado suas singularidades: a Legião Estrangeira, que é da França, mas é integrada por não-franceses.

O jornal parisiense “Le Figaro” lhe dedicou mais uma reportagem consciente de que o público não se cansa de ouvir falar dela.

O jornal admira o ambiente em que se forma o legionário: um luxo modesto na limpeza de um mosteiro.

A Legião tem uma liturgia própria que não é o sacrifício do sacerdote no altar, mas do herói nos campos de combate mais extremos.

O antigo e natural mecanismo de hierarquização define quem manda e quem obedece, quem se distancia e quem assume a defesa.

A Legião Estrangeira tomou corpo nas lutas contra mouros na Argélia
A Legião Estrangeira tomou corpo nas lutas contra mouros na Argélia
A autoridade natural é o princípio que fundamenta a sublime desigualdade com base no valor manifestado.

No Saara ou na Amazônia essas unidades compostas de voluntários trazidos pelos quatro ventos.

Eles se organizam, constroem seus abrigos e suas jangadas, com tanta afinidade mútua que Andrei, com sotaque russo, diz que ali está sua “pátria interior”.

Na Legião ecoam ao vivo a lembrança das grandezas da França em todas as circunstancias desde as Cruzadas.

Cada um dos voluntários “sem nome” é como uma concha deixada pela maré na praia. Ali entra numa Legião embebida em lendas de glórias e de lutos, de vitórias e catástrofes, onde desconhecidos se tornaram alguém.

O legionário tem uma genealogia de antepassados e irmãos mortos e vivos povoando a pátria da façanha!

A Legião insulta a modernidade”, resume o tenente-coronel Montulo. Composta ao 90% de estrangeiros e comandada por franceses, a Legião faz homens lutar por uma nação que não é a sua.

Como os monges, velhos estudiosos que cultuam uma luz sobrenatural feita de fé, ciência e arte, o legionário cultua o exemplo dos heróis cujas figuras pairam nos céus intangíveis da França

Os clérigos salvaram os manuscritos gregos quando os bárbaros devastaram o Império, os legionários salvam a humanidade da aviltada modernidade sem cerimônia, parafrasea “Le Figaro” .

O paradoxo da Legião consiste em que estrangeiros salvam os ecos de uma velha ideia da França enquanto espera que os franceses saiam da dormência hodierna.

Os franceses não têm mais forças para reeditar a gesta de séculos idos, mas outros fazem isso por eles.

Na Legião zelam por um país que já não se ama porque envenenado pela “Liberté, Égalité e Fraternité”, mas admira o gênio de outros que a amam.


terça-feira, 30 de março de 2021

Em 2021 o aborto matou o triplo que a pandemia desde o início

Aborto matou o triplo que a pandemia
Aborto matou o triplo que a pandemia, mas 'cultura da morte' e mídia silenciam
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No dia 10 de março (2021), a soma das mortes provocadas pela Covid-19 em todo o planeta desde o começo da pandemia estava perto de 2,625 milhões.

Nessa mesma data o total de abortos perpetrados no mundo somente em 2021, portanto em menos de 2 meses e meio, superou o triplo dessa sinistra marca: mais de 7,985 milhões de abortos desde o 1º de janeiro, informou “Aleteia”.

Isso mesmo: em menos de 2 meses e meio de 2021, as vítimas de abortos propositais triplicavam o total de mortes decorrentes da peste histórica do Covid-19 ao longo de mais de 14 meses desde seu início na China.

Os números foram calculados pelo site Worldometers.info, um painel de estatísticas mundiais que apresenta números a partir de fontes oficiais em constante atualização.

Ele mostra, por exemplo, que do dia 1º de janeiro de 2021 até o dia 10 de março, nasceram 26,2 milhões de pessoas, enquanto faleceram 11 milhões de seres humanos, sem contar os abortos.

Os números do Worldometers, por mais chocantes e inacreditáveis que pareçam, guardam coerência com os dados da própria Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo as estatísticas da OMS confirmadas pelo Instituto Guttmacher, entre 2015 e 2019 foram provocados em média 73,3 milhões de abortos não espontâneos POR ANO, ou seja, uma média de 6,10 milhões de abortos POR MÊS.

Além disso, dados de 2018 do Center for Disease Control (Centro de Controle de Doenças) dos EUA, mostram que 33,6% dos bebês mortos em abortos eram negros, embora a população dessa cor no país represente apenas 12,3% da população.


quarta-feira, 17 de março de 2021

Festa de São José, rei a três títulos sublimes,
Padroeiro da Igreja

São José, escola de Cuzco, século XVIII, Denver Art Museum.
São José, escola de Cuzco, século XVIII, Denver Art Museum.
Luis Dufaur
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São José era, ao mesmo tempo, trabalhador manual, carpinteiro e como tal pertencente à camada mais modesta da sociedade.

Mas de outro lado, ele era descendente do rei Davi, e de toda uma linhagem de reis de Israel.

A Casa de Davi decaiu e, com o tempo, perdeu o trono, afastou-se do poder. Sua família continuou a morar em Israel, em Judá, mas cada vez menos influente, menos poderosa e menos rica.

Quando afinal nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo a Casa de Davi estava no auge de sua decadência.

Então, São José Operário pode ser e deve ser cultuado enquanto operário.

Mas pode e deve também ser cultuado enquanto príncipe da Casa de Davi.

terça-feira, 16 de março de 2021

Papa Francisco troca hostilidade por simpatía aos EUA de Biden

Francisco mostrou simpatía com a eleição de Biden, arauto da cultura da morte
Francisco mostrou simpatia com a eleição de Biden, arauto da cultura da morte
Luis Dufaur
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O Vaticano sempre agiu com prudência diplomática ao divulgar audiências papais pessoais concedidas a personagens proeminentes da vida pública, sobretudo quando estão em conflito com dogmas da Igreja, observou o “National Catholic Register”.

Assim foi feito numa audiência concedida em 2011 ao então vice-presidente Joe Biden que se professa católico mas promove políticas cruamente contrárias ao ensino da Igreja Católica.

São Pio X recebeu ao Kronprinz, herdeiro do império alemão protestante que aplicava a política dita Kulturkampf abertamente hostil à Igreja.

Em tempos mais próximos, Bento XVI recebeu em Castel Gandolfo ao teólogo suíço dissidente Pe. Hans Küng em 2005, ou no mesmo ano à jornalista ateísta Oriana Fallaci, encontro esse nunca anunciado publicamente.

A administração pro-vida dos EUA não tinha as simpatias do Papa Francisco
A administração pro-vida dos EUA não tinha as simpatias do Papa Francisco
EO apoio de Biden ao aborto legalizado era bem conhecido em 2011 e não houve menção oficial alguma ao encontro e apenas uma fotografia e uma pequena legenda foram publicadas no L'Osservatore Romano.

m 2009, Bento XVI recebeu em audiência privada à presidente da Câmara, Nancy Pelosi, ardida postuladora de leis anti-vida. Nenhuma foto ou repórter foi permitida no encontro de 15 minutos.

No pontificado de Francisco, o Vaticano diminuiu visivelmente sua abertura aos proeminentes políticos católicos dos EUA que durante a administração Trump assumiram posições pela vida, contra a agenda LGBT e o ambientalsimo radical, entre outros pontos candentes.

A cautela foi substituída até pelo espalhafato. Ele passou a receber recebe visitas frequentes de personagens altamente contenciosos com o ateu Eugenio Scalfari, e até a comentá-las e propagandeá-las.

Ou, em grau menor, ao transgênero espanhol Diego Neria Lejárraga em 2015, e à filantropa católica pró-aborto e pró-contracepção Melinda Gates em novembro de 2019 .

Antes e depois da eleição presidencial de 2020, Biden passou a receber um tratamento do pontífice mais favorável do que seu oponente, o presidente Donald Trump.

O Vaticano de Francisco que se reputa mais aberto e acolhedor existe, sim, para Biden e sua crescente divergência com o magistério da Igreja sobre os principais ensinamentos morais católicos observa o o “National Catholic Register”.

Política da mão estendida ao demoledor da vida e da família
Política da mão estendida ao demolidor da vida e da família
Em menos de uma semana na Casa Blanca, o candidato preferido do pontífice argentino se engajou na mais radical agenda pró-aborto e teoria do gênero assumida por um presidente americano, em oposição às medidas pro-vida de seu antecessor, Donald Trump, pelo qual Francisco não poupou antipatia.

Outras questões-chave alineiam Francisco com Biden como a imigração e o combate às mudanças climáticas.

Nesses pontos – bandeiras das esquerdas – o papa Francisco em pessoa ou pela voz de sua equipe vaticana, criticou insistentemente a administração Trump. Isso desde a campanha presidencial de 2016, durante toda sua administração e para rematar na campanha presidencial de 2020.

Portanto, não é surpresa que o segundo presidente católico dos Estados Unidos apareça sem escrúpulos demolindo os fundamentos da família, da moral e da vida, dizendo levar um terço no bolso e contar com a benção da Santa Sé.



terça-feira, 2 de março de 2021

Enclaustrados pela pandemia: cérebros cada vez mais exaustos pelo uso intensivo da informática

Loren Frank, profesor de fisiologia: um dos cientistas consultados.
Loren Frank, profesor de fisiologia: um dos cientistas consultados.
Luis Dufaur
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Os cérebros têm cada vez menos tempo para repouso e saem danificados por causa do uso intensivo de equipamentos digitais, explicaram cientistas citados pelo “The New York Times” já em 2010 quando as pessoas tinham liberdade para espairecer, viajar, mudar de locais, se reunir com amigos, passar momentos distendedores. 

Mas agora, com a extensão continuada dos lockdowns, quarentenas e regimes amarelos e vermelhos pelo coronavírus o problema está gerando uma multiplicação assustadora de psicopatias e milhares de doentes psiquiátricos.

As pessoas querem remédio para o tédio, mas a invasão digital impede que elas aprendam melhor, memorizem a informação e gerem novas idéias. E para pior dificilmente podem sair de casa a vontade.

Experiências de cientistas da Universidade de Califórnia, San Francisco, apontaram como certo que o repouso “permite ao cérebro aproveitar as experiências, solidificá-las e transformá-las em memória permanente”, disse Loren Frank, professor do Departamento de Fisiologia. Porém, quando o cérebro está continuamente estimulado “impede-se este processo de aprendizado”.

Estudo da Universidade de Michigan comprovou que as pessoas aprendem mais após um passeio pela natureza do que após um passeio num ambiente densamente tecnológico urbano.

Refeição sem distensão e relacionamento: danos cerebrais
Refeição sem distensão e relacionamento: danos cerebrais
“As pessoas acham que estão se refrescando a mente, mas na realidade estão se fatigando a sim próprias”, explicou Marc Berman, neurocientista da Universidade de Michigan.

Por exemplo, “em lugar de terem longos períodos de distensão, como é o caso de uma refeição de duas horas” as pessoas apelam para videojogos especialmente concebidos para todas as ocasiões.

Os fabricantes de jogos digitais como Electronic Arts, acrescentou Berman, “reinventaram os jogos para se encaixar até nos micro-momentos da vida diária”. O prejudicado é o cérebro.

A consulta assídua dos celulares traz dano mental, sobre tudo quando é feita nos momentos em que o homem deveria se distender.

Apagar e-mails enquanto ouve-se a rádio num café é hoje banal.

A pessoa acredita estar aproveitando o tempo, mas ela está negando a seu sistema nervoso um indispensável momento de recuperação.

Falar no celular enquanto se guia o carro, se faz compras ou qualquer outra atividade; ler ou ouvir livros digitais ou surfar na esteira parece trazer vantagens de tempo.

Surfando numa academia: exemplo de dano às funções cerebrais
Surfando numa academia: já era exemplo de dano às funções cerebrais.
Imagine-se uma pessoa na solidão do isolamento forçado
Mas, no fim de um dia de “multitasking” o cérebro está exausto.

O mesmo vale para o uso prolongado de computadores ou equivalentes na solidão em casa em quarentenas que prometiam serem limitadas e vão se extendendo indefinidamente ao capricho de políticos.

Além do mais com estas práticas, os pesquisadores acham que ficam anulados os benefícios das novas tecnologias. 



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Pandemia esvazia práctica católica
já minada no pós-concilio

Só um fiel na Catedral de Westminster, Londres
Só um fiel na Catedral de Westminster, Londres
Luis Dufaur
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O Covid-19 impactou a prática da fé como uma telha que caísse sobre um altar de madeira carcomido a fundo pelo caruncho e provocando assustador desfazimento.

Na França, após a liberdade devolvida ao culto católico, abandonou a missa entre 15 e 30 % do minguadíssimo número que ainda assistia.

A decadência se inseriu na acentuada curva decadente do período pós-conciliar. Os que ainda comparecem apontam os mesmos fatores: indiferença abandono da catequese, dos sacramentos, fidelidade cambaleante, segundo o jornal “La Croix” porta-voz oficioso da Conferência Episcopal.

Em 1978 81% dos franceses se afirmava católica, hoje só 53%. Mas só o 4,5%, vai à missa, e só uma vez por mês! Declara cumprir o preceito dominical semanal apenas o 1,8%.

A enquete não diferencia entre rito ordinário e extraordinário, dando a impressão de ser o total dos comparecimentos.

Numa pandemia de tal maneira focada nos perigos da doença, no número de contágios e mortes, não era a hora dos fiéis tendo à sua testa, e massivamente o clero, invocarem fervorosamente os auxílios sobrenaturais que em dois milênios e com tanta eficácia afastaram as piores epidemias de um modo que ficou registrado para sempre em livros e monumentos?

Terá sido a “fumaça de Satanás” que invadiu os templos e afastou o corpo da igreja da sua fonte de salvação que encegueceu a fé e alimentou a obsessão sanitária materialista?

Pe. Giuseppe Corbari, párroco de Robbiano, celebra misa dominical para um monte de fotos
Pe. Giuseppe Corbari, párroco de Robbiano, celebra missa dominical para um monte de fotos
O jornal símbolo do catolicismo francês descreve seus apertos econômicos, esmolas e malabarismos para tampar as perdas e não fechar, sem sequer mencionar algum apelo ao sobrenatural.

O Episcopado chora agudas perdas nas esmolas: 40% a menos de um orçamento que só fazia diminuir na crise pós-conciliar, tratando do problema econômico como se Deus não estivesse ai e nunca tivesse socorrido fiéis e igrejas na necessidade. Cfr.: “La Croix”

Mas nem por esse argumento pecuniário, que os faz sofrer tanto, as igrejas deixaram de ser fechadas! 

O recurso a que recorrem em última instância são as subvenções dos órgãos públicos herdeiros da jacobina e anticristã Revolução Francesa! E que fornece auxílios, aliás, tacanhos que não cobrem as despesas e ordenados de funcionários.

Se há um santuário que Nossa Senhora em pessoa instituiu para curar os aflitos de todo mal e doenças, cujos milagres a ciência médica confirmou de modo estentóreo é o de Lourdes.

Mais de sete mil deles foram analisados com a lupa anos a fio por comissões de especialistas dotados dos melhores equipamentos que reconheceram curas inexplicáveis pela ciência.

Para não falarmos dos milhões de outros casos não analisados ou não declarados ao Bureau Medical de Lourdes. Quantas dezenas de milhões de fiéis foram a Lourdes a pedir a cura ou o consolo e voltaram se achando atendidos?

Mas, Lourdes, o santuário das curas, está quase deserto. O que houve? 

E os incontáveis altares, capelas ou grutas, réplicas da de Massabielle que há espalhadas no mundo inteiro onde se registraram alguns dos mais estonteantes milagres de Lourdes na Terra?

Ninguém na missa de Páscoa na Basílica de Aparecida. Arcebispo pediu que os fiéis sigam 'orientações dos médicos'
Ninguém na missa de Páscoa na Basílica de Aparecida.
Arcebispo pediu que os fiéis sigam 'orientações dos médicos'
Que fenômeno estranho aconteceu por onde os doentes, reais ou imaginários, não foram pedir a cura fulminante do Céu enquanto discutiam remédios e variantes de vacina?

Não é diferente em Aparecida: no ano 2020 acolheu 3.371.127 romeiros, segundo dados oficiais do Santuário Nacional, com uma diminuição de 75% em relação a 2019, quando foram registrados 11.963.635.

Desde 2014, a visitação anual à Basílica de Aparecida era igual ou superior a 12 milhões, sublinha a publicação do Santuário.

Para se ter ideia, de 1º de janeiro a 14 de março de 2020 1.546.322 devotos passaram pelo Santuário. Mas quando a doença atingia o auge o Santuário de Aparecida fechou. 

De 15 de março a 31 de dezembro, só compareceram 1.824.805 peregrinos. Em quase dez meses compareceu perto dos mesmos números dos dois primeiros meses do ano.

A diminuição de público em datas tradicionalmente movimentadas foi sensível: o 12 de outubro, Dia da Padroeira, apareceram por volta de 30 mil fiéis quando o ano anterior tinham sido mais de 160 mil.

A Igreja anglicana da Trindade ficou ainda mais vacia de fieles en Manhattan
Triunfo do ateísmo? A Igreja anglicana da Trindade em Manhattan
ficou ainda mais vazia de adeptos
A movimentação anual em 2020 foi a mesma das décadas de 60 e 70 do século passado.

Uma exceção ocupa um local de honra: a ponderável afluência de fiéis, em sua maioria casais jovens com muitos filhos, ao rito extraordinário da Missa – ou de São Pio V, ou simplesmente ‘missa em latim’ – sendo que eles antes da pandemia não o frequentavam.

Para essa dinâmica e fervorosa minoria tudo se passa como se a salvação se encontrasse na igreja de sempre. 

Puseram a velha modernidade carunchada de lado e com a paz na consciência foram as igrejas onde tem certeza ouvir a voz do Bom Pastor e onde aspiram ter a proteção de Nossa Senhora. 

Mas é preciso reconhecer que é um fenômeno minoritário.

Para muitos católicos o fechamento das igrejas resutou também de um grande processo anti-cristão
Para muitos católicos o fechamento das igrejas resultou também de um multi-secular processo anti-cristão
Outro exemplo é o das procissões de Semana Santa de 71 irmandades em Sevilha que reúnem centenas de milhares de católicos e curiosos. 

Elas foram totalmente interditadas pela Arquidiocese por segundo ano consecutivo com argumentos não de fé mas sanitários: evitar contágios e com os termos mais draconianos, conforme noticiou ACI Prensa.

Algo semelhante só aconteceu em 1933, durante uma onda de crimes de bandas esquerdistas da II República nas vésperas da sangrenta Guerra Civil 36-39.

O que devia ser a rememoração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, ficou parecendo da parte do clero e do povo com uma imensa manifestação de indiferença e insensibilidade, ou até um triunfo de Lutero sobre o Concílio de Trento.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Santa Teresinha e a parábola do escritor Saint-Exupéry






O escritor e aviador francês Saint-Exupéry (1900-1944) descreve simbolicamente em seu livro Vol de Nuit (voo da noite) a situação da pessoa que, almejando colocar-se acima das misérias terrenas, procura com avidez alcançar o sublime. 

Vamos primeiro ao texto, que comentaremos depois.

Imagina ele um aviador de nome Fabien voando em meio a uma tormenta que parece arrastá-lo para o sorvedouro:

“E foi num momento destes que algumas estrelas brilharam sobre a sua cabeça, num rasgão da tempestade [...]. Sua fome de luz era tal, que Fabien subiu. [...]

Sofrera tanto em busca duma luz, que já não largaria mesmo a mais confusa. Sentindo-se afortunado com aquele pobre clarão, seria capaz de dar voltas, até cair morto, em torno daquele sinal do qual andava faminto. E ei-lo subindo até os campos de luz.

“Elevava-se pouco a pouco, em espiral, num poço que se abrira acima dele e se fechava debaixo dele. E à medida que subia, as nuvens iam perdendo a sua cor escura de lama, passavam a seu lado como vagas cada vez mais puras e brancas. Fabien emergiu.

“Foi imensa a sua surpresa, a claridade era tal que o ofuscava. Teve de fechar os olhos durante alguns segundos. Nunca imaginara que de noite as nuvens pudessem ofuscar. Mas a lua cheia e todas as constelações transformavam-nas em vagas deslumbrantes.

“No mesmo instante em que emergia, o avião recuperou subitamente a calma, uma calma que parecia extraordinária. Nenhuma onda o fazia inclinar-se.

Como um barco que transpõe o dique, entrava em águas reservadas. Encontrava-se num canto do céu ignorado e escondido, como a baía das ilhas bem-aventuradas.

Abaixo dele, a tempestade constituía um outro mundo de três mil metros de espessura, percorrido por rajadas, por trombas d’água, por relâmpagos, mas oferecia aos astros uma face de cristal e neve.

“Fabien tinha a sensação de ter chegado a limbos estranhos, pois tudo se tornava luminoso: as suas mãos, o seu vestuário, as suas asas. [...]

“Aquelas nuvens, abaixo dele, refletiam toda a neve que recebiam da lua. E também as da direita e da esquerda, altas como castelos. Corria um leite de luz, em que a tripulação se banhava. [...]

Mil braços obscuros o tinham largado. Tinham-se quebrado as cadeias, como as de um prisioneiro que deixam caminhar só, por um instante, entre flores. ‘Belo demais’, pensava Fabien, enquanto vagueava no meio de estrelas amontoadas como um tesouro” (Antoine Saint-Exupéry, Vol de Nuit, Gallimard, 1972).

* * *

O que dizer?

Esse sublime existe, e ele se reflete nas coisas que nos cercam.

Tudo o que existe de belo, verdadeiro e bom nesta Terra é reflexo de uma realidade superior, que Deus criou para os que O amam, e que encontraremos plenamente desabrochada no Céu.

Aqui na Terra, esses aspectos sublimes, que espelham a Deus, encontram-se misturados com o horrendo, o mau e o errado, por efeito do pecado original e dos pecados atuais dos homens, e também pela ação diabólica que a tudo quer corromper.

Pode haver épocas ou situações em que as semelhanças da sociedade terrestre com o Céu predominem, e outras em que os reflexos do Inferno nos flagelem, como a atual.

Mas em qualquer tempo existirão os dois mundos –– o do belo e o do horrendo –– muitas vezes mesclados.

Felizes aqueles que souberem distingui-los, para detestar o feio e admirar o belo. Mais ainda, para serem lutadores em favor do bem e da verdade, contra o mal e o erro.

Os que se encantam com a beleza, a verdade e o bem, onde quer que eles se encontrem, esses preparam suas almas para o Reino de Deus.

A mais acertada conclusão desta “visão” de Saint-Exupéry não nos é dada pela bela descrição simbólica que ele faz –– e que permanece no terreno meramente natural –mas sim pelo escrito singelo de Santa Teresinha do Menino Jesus: “Por cima das nuvens o céu é sempre azul”.

E para a carmelita de Lisieux, este céu que paira sobre as nuvens é o Céu dos Bem-aventurados.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Ensino não-presencial rebaixa a educação e preocupa os pais

As crianças tiveram perdas educativas mensuráveis com o tele-ensino
As crianças tiveram perdas educativas mensuráveis com o tele-ensino
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Quando as aulas foram fechadas pelo Covid-19 os professores – especialmente nas escolas primárias – tiveram dificuldade para se comunicar com seus alunos.

WhatsApp, Zoom, smartphones e novidades pareceram uma panaceia. Porém, durou pouco. Os contatos entre alunos e professores tornaram-se mais espaçados e entrou o que alguns especialistas falam do “efeito fadiga”.

Também entre os adultos a comunicação digital perdeu interesse e intensidade com o avanço da pandemia. Ficou mais comum desligar a câmera e sentir “algum estresse” resultante dos Zooms sucessivos, noticiou “Clarín”.

O Observatório Argentino pela Educação conferiu que a comunicação diária entre alunos e professores em escolas de ensino fundamental estaduais caiu 11% entre junho e novembro.

51% dos meninos estavam online diariamente em junho, mas só 40,1% em novembro.

Sandra Ziegler, pesquisadora de Flacso Argentina uma das autoras do estudo, junto com Víctor Volman e Federico Braga, constatou que a teleducação “produziu uma ruptura de duas funções sociais da escola: disciplina e aplicação. A queda de 11% no contato professor-aluno patenteia vínculos pedagógicos deteriorados”, considerou.

O estudo também constatou que a proporção de alunos que consagram mais de 3 horas por dia às atividades escolares diminuiu 6,5 pontos: de 52,2% para 45,7% no período.

Sociedade Argentina de Pediatria “o retorno presencial às escolas é fundamental”
Sociedade Argentina de Pediatria: “o retorno presencial às escolas é fundamental”
O percentual de pais preocupados com a perda de aprendizagem devido à educação a distância aumentou de 62,7% para 66,7%.

A proporção de famílias que consideram que seus filhos estão perdendo o aprendizado aumentou em quatro pontos percentuais. Passou de 62,7% para 66,7%. 

O que significa que hoje quase sete em cada dez pais no país percebem essa perda de aprendizado.

A Sociedade Argentina de Pediatria (SAP) em duro relatório defende que “o retorno presencial às escolas é fundamental” e increpou o governo por bloqueá-lo.

“É indiscutível que a escola é essencial para o desenvolvimento e bem-estar das crianças, não só para a aquisição de conhecimentos, mas também para o fortalecimento dos aspectos emocionais e sociais, saúde e atividade física”, registrou “La Nación”.

A escola é “um lugar seguro” e “não pode ser relegada nem os direitos das crianças anulados”, alegando a pandemia, concluiu.


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Exército dos EUA recomenda a sesta

Exército americano recomenda favorecer a sesta 03 Fonte U.S. Medicine
Exército americano recomenda favorecer a sesta 03 Fonte U.S. Medicine
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








O exército americano é o melhor preparado do mundo e edita um Manual para os soldados se manter com boa saúde. A última versão se denomina “Saúde e boa forma holística” (PDF) e foi reeditado em outubro de 2020.

Ele inclui uma fórmula bem conhecida por nós, povos latinos, mas é pouco praticada nos países nórdicos e anglo-saxônicos. Trata-se do que o Manual chama de “sesta estratégica”.

O manual investiga as diferentes preparações que um soldado precisa: físicas, nutricionais, mentais, espirituais. E, por último, mas não menos importante; o sono, ao qual dedica um capítulo inteiro, conforme relatado pelo The New York Times.

“O sono é um requisito crítico para a saúde e função do cérebro, ensina o manual. A prontidão para dormir é a capacidade de reconhecer e implementar os princípios e comportamentos do sono necessários para apoiar o funcionamento ideal do cérebro.

“A prontidão para dormir, por sua vez, apoia a habilidade de um soldado para satisfazer as demandas físicas e não físicas de qualquer dever ou posição de combate, cumprir a missão e continuar lutando e vencendo”, destaca o texto.

O Exército dos EUA recomenda aos soldados dormir de 7 a 9 horas por noite, a fim de atingir o chamado de “ritmo de alerta circadiano”. Mas para quem não consegue isso recomenda tirar um cochilo à tarde.

Exército americano recomenda favorecer a sesta
Exército americano recomenda favorecer a sesta
O manual destaca que há uma 'queda' temporária no estado de alerta à tarde, especialmente em pessoas com dificuldade para dormir. Por isso recomenda uma “imersão” após a refeição, em que aumenta a atividade digestiva e também o cansaço do corpo.

A sesta é a oportunidade de “um repouso de boa qualidade durante o dia, que ajuda a apagar qualquer carência do sono”.

“Os soldados podem tirar esses cochilos sem interromper significativamente o ritmo circadiano de alerta, desde que não sejam longos ou frequentes ou que prejudiquem a capacidade de iniciar o sono à noite”, diz o documento.

O manual exorta os oficiais a considerarem cochilos longos como uma forma de recuperação para seus soldados, nos casos em que uma missão em andamento não os deixe adormecer à noite.

O manual de aptidão física insiste com os oficiais: “Os ambientes operacionais ou de treinamento devem ser seguros para os soldados dormirem.

“Isso também se aplica a áreas onde os soldados cochilam. Certifique-se que os soldados não tentam tirar uma soneca na frente, atrás ou embaixo de caminhões, tanques ou outros veículos”. 



terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Penitenciário Mor da Igreja: “missas” ou “absolvições” virtuais são inválidas

Cardeal Mauro Pacenza, Penitenciário Mor do Supremo Tribunal da Penitenciária Apostólica
Cardeal Mauro Pacenza, Penitenciário Mor do
Supremo Tribunal da Penitenciária Apostólica
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Em entrevista ao jornal vaticano “L'Osservatore Romano”, o Cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário Mor do Supremo Tribunal da Penitenciária Apostólica, reiterou o ensinamento imemorial sobre a matéria e a forma dos sacramentos, noticiou “Infocatólica”.

Na nossa época viciada de “virtual” a pergunta mais viva foi: “pode-se usar smartphones ou redes sociais para confessar?”

O Penitenciário Mor da Igreja foi claro: “Podemos afirmar a nulidade da absolvição concedida por esses meios.

“De fato, falta a presença real do penitente e não há transmissão real das palavras de absolvição; são apenas vibrações elétricas que reproduzem a fala humana”.

Também foi interrogado se por causa da situação sanitária, social e econômica, pode se cumprir o preceito de assistir à missa dominical ouvindo a celebração por rádio, streaming ou televisão.

A resposta também foi clara:

“Nada pode substituir a participação na Santa Missa pessoalmente.

“Nas situações em que não é possível assistir à Santa Missa, não há obrigação de substituir a participação com outra coisa”.

“Os deficientes que com motivo válido assistem à celebração pela televisão, realizam apenas um ato piedoso e espiritualmente útil”.

O Cardeal lembrou da vigência da prática da absolvição coletiva, que esta pandemia não mudou. É válida em caso extremo tendo a intenção de se confessar pessoalmente na primeira ocasião possível.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Tesouros de Natal: São Nicolau, a árvore maravilhosa, Santa Lucia e o pudding real

Natal 2020, anônimo peruano e igreja colegiata de Thann, Alsacia
Natal 2020, anônimo peruano e igreja colegiata de Thann, Alsácia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Natal abre clareiras de luz e alegria nas trevas e nas tristezas.

Enquanto em Belém raiava a salvação, o imperador Augusto refletia o fracasso de sua política moralizadora.

Perto dele iam noite adentro as orgias e os arúspices e falsos teólogos jogavam as sortes com o oculto.

Eles não sabiam a sociedade do futuro se decidia num estábulo da Judeia.

Ali as mãos virginais de Maria davam ao mundo o Messias que o redimiria com seu sangue, o reorganizaria com seu Evangelho e o inundaria de gáudios com sua graça.

Quem foi São Nicolau?


Foi o caso de São Nicolau (270–343) de Bari, Itália, bispo de Myra, hoje na Turquia, e cuja festa é o 6 de dezembro, no Advento.

São Nicolau joga pela janela a dote para as moças nobres pobres, Fra Angelico (1395 –1455), Pinacoteca Vaticana
São Nicolau joga pela janela a dote para as moças nobres pobres.
Fra Angelico (1395 –1455), Pinacoteca Vaticana
Um nobre arruinado de sua diocese, pai de três moças, não podia pagar a dote para casá-las e pensou dá-las ao meretrício.

Na noite o santo bispo viu as meias delas secando na lareira, e jogou pela janela uma sacolinha em cada uma com moedas que valiam a dote.

Ninguém imaginaria que essa caridade mudaria os costumes do mundo durante milênios. Do norte da Europa e da América uma torrente de cartas infantis o saúda e lhe implora presentes.

Na Alemanha, os Correios encaminham todo ano por volta de 500 mil cartas para a agência de Engelskirchen, ou Igreja do Anjo, na Renânia do Norte-Vestfália.

Uma outra agência na Finlândia, recebe mais meio milhão com saudações e pedidos.

A imaginação e a fé deram a São Nicolau uma realidade que não se limita ao Céu celestial.

A mente infantil está certa que ele vive nesta terra lendo essas cartas e faz suas listas aguardando o período natalino para distribuir os regalos.

Mas onde está ele? Por que só aparece nesse período? A tradição forjou a imagem de um piedoso ermitão que mora num local inacessível.

Qual? Pois, o Ártico! Lá, revestido de suas insígnias episcopais, agasalhado com peles, lê cada carta junto à lareira de uma cabana num bosque sepultado pelas neves.

Lá ele ajeita seu trenó e alimenta as renas que o conduzirão por todos os elementos.

Mas de onde saíram esse trenó e essas renas que nunca houve em Myra nem em Bari? Pois, da poesia de 1823 “Uma visita de São Nicolau”, de Clement Clarke Moore.

São Nicolau numa escola pública de Linéville, Alsácia.

Para a inocente alma infantil tudo ficou explicado.

As renas traziam São Nicolau de trenó! São quatro casais de renas, cada uma nomeada pelas suas qualidades.

Uma nona vai na frente de todas e é a mais famosa: Rodolfo Nariz Vermelha.

Ela tem um faro especial e seu nariz fica vermelho brilhante quando se aproxima da casa de uma criança que fez méritos. 

O comerciário Papai Noel e o verdadeiro São Nicolau

Deixemos de lado a contrafação comerciária de Papai Noel e vejamos como São Nicolau é recebido em alguns países.

Aliás, o primeiro Papai Noel que se fez ver no Brasil foi numa Ceia de Natal em São Luís do Maranhão por volta de 1890.

Entrou pela janela com a saca de presentes, mas os homens puxaram trabucos e revolveres.

Salvou a vida porque Da. Maria Barbara de Andrade, filha do poeta Joaquim de Sousa Andrade, se interpôs gritando: “Não o matem! É o Papai Noel! Eu o contratei!”.

Na Alsácia, na fronteira da França com a Alemanha. São Nicolau é um personagem oficial.

As escolas do Estado preparam os alunos lhes ensinando canções que pedem sua vinda no 6 de dezembro quando ele chega com seu cortejo e convoca cada criança a render contas e lhe dar o presente.

Atrás dele em ruas e praças vem um personagem sinistro: é o Padre Látego, encapuçado, de barba e cabelos desgrenhados, rosto escuro e olhar sombrio.

Ele faz ressoar no ar um látego, pau ou feixe de varas visando as crianças desobedientes.

São Nicolau e o 'Padre Látego' em Mulhouse, Alsácia
São Nicolau e o 'Padre Látego' em Mulhouse, Alsácia.
Numa grande saca garante levar os meninos que não fazem suas orações.

As crianças o vaiam e lhe jogam bolinhas de papel.

Jules Hoches o pintou como “um enviado do Diabo que ameaça levar as crianças que não cumprem as promessas”.

Em Wissembourg monta um cabalo negro e peludo, escoltado por ginetes apocalípticos que com o fragor de tambores aterrorizam a população.

Lutero, pai do protestantismo, detestava os santos e não queria a festa de São Nicolau.

E acabou sendo ele o Padre Látego dos maus cristãos! A Contrarreforma católica aprovou a figura para inculcar nas crianças o senso do prêmio e do castigo.

A árvore maravilhosa


Os presentes podem chegar na festa de São Nicolau, no Natal, ou ainda na Epifania, trazidos pelos Reis Magos, segundo as regiões.

O costume mais antigo é deixar meias penduradas na lareira em lembrança das três moças do início da cavalgada milenar de São Nicolau.

Árvore e meias para os presentes de São Nicolau, EUA
Árvore e meias para os presentes de São Nicolau, EUA
Na Holanda as crianças as enchem de feno para alimentar as pobres renas com a esperança que quanto maior a meia e o feno, mais grande será o presente.

Mas podem receber só um carvão se não se comportaram. Em alguns países os presentes chegam em mais de uma festa.

Sélestat, cidade da Alsácia, é uma das que reivindica a paternidade da Árvore de Natal e exibe o mais antigo documento que há sobre ele.

Mas os pinheiros ornados e com presentes ficam pendendo do teto no interior das igrejas.

Após a Missa de Epifania as crianças vão com varas derrubar os presentes.

O pai da árvore natalina tal vez seja São Bonifácio que derrubou um imponente carvalho que os bárbaros idolatravam como deus.

Depois plantou um pinheirinho que pelo seu perfil triangular servia para explicar o mistério de Deus Uno e Trino, e o ornou com frutas e sementes símbolo das graças que distribuía.

A maçã vermelha brilhante era ideal para isso, mas um aziago ano, a geada queimou a colheita.

Na Alsácia e na Turíngia mestres vidreiros substituíram as frutas e nozes com bolas cristalinas que a rainha Victória da Inglaterra (1819–1901) mandou adotar em seus castelos.

O mundo todo seguiu o exemplo.

Lucía: a Santa da Luz


Santa Lucia, seu dia na Suécia.
Nos países nórdicos, a mártir romana Santa Lucia (293–304) é especialmente comemorada no dia 13 de dezembro.

Ela é uma das oito santas invocadas no Canon da Missa católica tradicional.

Ela foi uma nobre de Siracusa, de riquíssima família e excecional beleza que consagrou sua virgindade a Deus.

Não sabemos seu nome, mas ela saía às noites a distribuir doações e alimentos aos pobres com uma lâmpada de vela que lhe dava luz e o nome Lucia.

Nas torturas para faze-la apostatar lhe arrancaram os olhos, mas Deus lhe deu outros ainda mais belos.

Por isso é a padroeira dos oftalmologistas e dos doentes dos olhos pois tira os cegos da escuridão.

Na Escandinávia os dias do Advento são curtos e escuros.

Então moças vestidas de branco com uma coroa de velas levam bolos para os pobres e carvão para os que passam frio.

Na Noruega, na Suécia, e na Finlândia coros de meninas assim coroadas processionam lembrando a Luz de Cristo que ilumina as trevas – até nos recintos protestantes! Os rapazes usam vestes alusivas a Santo Estevão protomártir.

O culto foi levado por missionários medievais e paradoxalmente renasceu no século XIX sob o tamanco luterano.

Santa Lucia com roupas tradicionais suecas.
Santa Lucia com roupas tradicionais suecas.
As procissões públicas começaram em 1927 quando um jornal de Estocolmo escolheu a Lucia do ano e o exemplo pegou fogo em cidades, escolas, jornais e TVs.

Segundo o Guinness a procissão de Santa Lucia na capital sueca é a maior do mundo com 1200 membros de escolas de música. Ela ingressa numa sessão do Parlamento entoando uma canção tradicional napolitana e vilancicos locais.

Em certas universidades, há um jantar especial em seu dia.

A Finlândia imitou a Suécia e a Santa Lucia do ano é coroada na catedral de Helsinki, paradoxalmente protestante.

A também herética Dinamarca imitou a Suécia em 1944 pelo desejo oficial “de trazer luz numa época de escuridão”.

A festa é comemorada seletivamente nas escolas.

Na noite anterior só se acendem velas e se apagam as luzes elétricas e se canta o famoso vilancico napolitano à Santa.

Na Noruega, comemora-se Lucia como aquela que espanta os espíritos, gnomos e fantasmas que giram pela terra nos dias mais negros do ano e pune aqueles que trabalham no Natal.

No Norte da Itália, Santa Lucia leva presentes às crianças nos dias 12 e 13 de dezembro quando são feitas umas bolachinhas doces com forma de olhos que lembram seu martírio.

As crianças lhe deixam um pouco de café, palha para seu burrico e um copo de vinho de Castaldo.

Na Hungria e na Croácia planta-se uma semente de trigo num vaso em sua festa e o broto no Natal é símbolo do triunfo da vida sobre a morte e do nascimento de Jesus e da Eucaristia.

Nas Filipinas celebra-se uma novena de missas antes de sua festa.

No Caribe, a Santa é a padroeira de uma pequena ilha que leva seu nome e festeja sua data como Dia Nacional.

O ‘pudding’ real inglês


A rainha e os príncipes herdeiros preparam o pudding familiar tradicional.
A rainha e os príncipes herdeiros preparam o pudding familiar tradicional.
 ‘pudding’ inglês é a fonte de todos os pudins da terra e não pode faltar nem no Palácio real de Buckingham.

Cada família faz seu ‘pudding’ com fórmula exclusiva, inclusive a família real.

Em 2019, a rainha cedeu sua função aos príncipes herdeiros.

O encarregado de fazer a mistura dos 25 elementos foi o principinho George que agiu com ferrenho entusiasmo acolitado pelos príncipes Charles e William.

A receita secreta deu 99 pequenos ‘puddings’ presenteados pela rainha para o Natal dos postos militares mais afastados.

Elizabeth II presentou também 1.500 puddings de boa loja a seus 500 auxiliares nos castelos.

Eles receberam junto um cartão assinado pela rainha e receberam um cumprimento pessoal.

O pudding de Natal da famíliia real presenteado aos soldados servindo longe do país
O pudding de Natal da famíliia real presenteado aos soldados servindo longe do país
O ‘pudding’ não é de origem inglês, mas foi trazido pelos soldados romanos que amassavam – como os tropeiros com o cuscuz – em sua alforja frutos secos, nozes, amêndoas, etc. com leite e álcool e iam comendo a massa em suas longas expedições. Assim devia ser nos tempos de Jesus em Belém.

Vinte e um séculos depois da divina Natividade, o mesmo mundo comemora o Natal sem saber de seu destino que, aliás, intui cada vez mais negro.

A Terra afundou num caos que nem nos tempos de Augusto teve igual.

Mas, como os pastores que adoraram o Menino Deus no presépio, hoje os homens de boa vontade podem procurar a salvação nas mãos da Mãe de Deus.

Só por meio dEla será restaurado o reinado social de Jesus Cristo onde haverá festas de Natal incomparavelmente mais belas de tudo o que os homens até agora conheceram.