terça-feira, 29 de outubro de 2019

Catedrais protestantes viram templos de lúdico ateísmo

Torre tobogã na catedral anglicana de Norwich.
Torre tobogã na catedral anglicana de Norwich.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Catedrais medievais inglesas outrora católicas, confiscadas após o cisma protestante de Henrique VIII, viraram centro de lazer dotados até de tobogã, minigolfe, paisagens lunares ou um modelo realista da Terra pendurado do teto, segundo descreveu o jornal “The New York Times”.

As profanações estão na continuidade lógica da revolução protestante que fez da religião uma fonte de satisfações subjetivas.

As mudanças evocam a transformação das igrejas em centros de diversão ateus na ex-URSS. Já no seu início, a explosão de orgulho e sensualidade luterana deu no igualitarismo das seitas protestantes mais radicais que levou aos primeiros ensaios de comunismo, como no caso dos anabaptistas de Münster.

Na catedral de Norwich, Inglaterra, um tobogã serpenteia como num parque de diversões, debochando das sacrais colunas góticas da nobre catedral de pedra. O ‘cônego’ anglicano da catedral, Andy Bryant, defende a folia como fonte de uma “nova perspectiva sobre a religião”.

O ‘cônego’ anglicano Bryant não é um religioso consagrado. Como todos os eclesiásticos anglicanos, trata-se de um funcionário público concursado, pago pelo governo.

Porém, partilha as ideias dos clérigos católicos progressistas ansiosos de prazenteiras ‘experiências comunitárias’. E não sente temor em dizer que a dessacralização e o aviltamento das grandes catedrais é “uma tentativa premeditada”.

Pastor anglicano diz pregar desde o tobogã da catedral de Norwich
Pastor anglicano diz pregar desde o tobogã da catedral de Norwich
Ele explicou para o jornal nova-iorquino que o objetivo ateizante é conseguir que “o tobogã torne o ambiente insolente e buliçoso”.

Ele pretexta que o pessoal, subindo, vai prestar mais atenção na catedral. De fato, a torre-tobogã parece mais feita para os absurdos pagãos do Halloween.

A assistência às igrejas anglicanas descamba, e o ambiente de parque de diversões é um extremo de achincalhe de uma religião que afugenta os que a frequentavam antes.

O pretexto, que é “apresentar uma imagem mais inclusiva e menos rígida”, acaba tendo um efeito centrífugo e antirreligioso, como o produzido pela ‘arte’ moderna nas igrejas católicas.

Bryant não se esquece de cobrar duas libras (por volta de 12 reais) pelo aceso ao tobogã, acentuando a nota interesseira e irreligiosa do entretenimento.

As missas – aliás, inválidas e escassas – são “normais” e destinadas a atrair quem se interesse por elas.

Bryant planeja sermões para deixar os presentes mais à vontade, proferindo-os ridiculamente do alto do tobogã circense.

Reprodução gigante da Lua pendurada do teto da catedral de Peterborough;
supostamente para atrair fiéis, de fato afasta gente séria
Ele diz que recebe elogios nas redes sociais, mas são numerosas as críticas por “trivialidade” e “quebra espiritual”. Muitos objetam que se o que Bryant prega fosse verdade, não precisaria de palhaçadas para atrair crentes (ou clientes).

Segundo o instituto de investigação social NatCen, no período de 2002 até 2018 os anglicanos ficaram reduzidos à metade.

A assistência dominical aos seus cultos perdeu 15% em dez anos. Queda acentuada, mas talvez inferior à registrada entre os católicos no período pós-conciliar.

Adrian Dorber, deão da catedral de Lichfield, caiu no ridículo quando tentou negar pela BBC que fossem “truques baratos de marketing”, como opinam os ingleses mais respeitosos.

Ele defendeu que as atividades lúdicas e circenses levam as pessoas ao transcendental. Obviamente, não é um transcendental sério.

A catedral de Lichfield cobriu as pedras de seu histórico piso com uma chapa que reproduz a superfície da lua.

O deão alega que é para comemorar a alunissagem da Apolo 11, esquecido de que os fiéis não vão a uma catedral gótica para ver isso, mas à procura de Deus.

Minigolf na nave da catedral de Rochester, a transforma em local de divertimento comunitário como fazia o regime soviético e quer fazer o progressismo católico
Minigolfe na nave da catedral de Rochester, a transforma
em local de divertimento comunitário como fazia o regime soviético
e quer fazer o progressismo católico
A catedral de Peterborough pendurou no teto um modelo da lua e oferece imagens da NASA para dar a sensação da terra vista do espaço, pagando entrada, sem dúvida.

A catedral de Rochester oferece jogar minigolfe na sua nave medieval, com obstáculos para suscitar “pontes espirituais” que ninguém procura num minigolfe.

Os fiéis que quiserem rezar ficam escorraçados ou proibidos de fato de fazê-lo, e com mais pundonor preferem não voltar mais.

Para o ex-pastor Gavin Ashenden, as exibições nas catedrais não passam de uma “burla”.

A degradação dos prédios simbólicos constitui, segundo ele, um caso típico da “saturação de estímulos e distrações da vida quotidiana”.

“O ritmo e os prazeres da vida impossibilitam a reflexão e a oração. A catedral deveria ser um local para nos libertarmos disso”. Nestes casos, funciona como uma iniciação no ateísmo.

Nisso os anglicanos estão precedendo de muito pouco os católicos que profanam suas igrejas com obras de arte e liturgias ‘apalhaçadas’ com o pretexto de atrair fiéis.

Mas, de fato, estão impulsionando o maior movimento coletivo de apostasia da História.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

França: o retorno dos heróis

Santa Joana d'Arc, santuário de Bois Chenu, Lorena, Herois medievais
Santa Joana d'Arco, santuário do Bois Chenu, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Uma das mais sublimes manifestações do espírito humano parecia afogada pelo prazer materialista da vida. O heroísmo parecia enterrado para sempre, e no país dos heróis cristãos que é a França! deplorou Louis de Raguenel em “Valeurs Actuelles”.

Em 2005, a maioria das teses dos alunos da Escola Nacional de Administração francesa (ENA), célebre pela sua exigência, “constatavam ou lamentavam a decadência de uma sociedade cada vez mais individualista que torna difícil aparecer grandes homens”.

Alguns escritos achavam resignadamente que essa queda ficou fatal por causa da evolução da sociedade.

E constatavam que se foram os tempos em que os heróis podiam aparecer falando e agindo preto sobre branco.

A morte do oficial de gendarmaria Arnaud Beltrame num lance heroico contra o terrorismo chacoalhou a França adormecida pela mediocridade
A morte do oficial de gendarmaria Arnaud Beltrame num lance heroico
contra o terrorismo chacoalhou a França adormecida pela mediocridade
Porém a morte desafiando o perigo extremo do coronel Arnaud Beltrame, no dia 23 de março de 2018, em Trèbes e a dos comandos da marinha Cédric de Pierrepont e Alain Bertoncello, na noite de 9 para 10 de maio de 2019, soaram como bofetadas para a mentalidade moderna amolecida, escreveu Louis de Rague.

Houve pelo menos um punhado que rompeu com o presente timorato e decadente.

Os atentados islâmicos estão se reproduzindo sem cessar em Paris e na França toda pelo menos mais violentamente desde 2015.

E a sociedade moderna e progressista que se acreditava instalada na mediania para sempre se voltou então para a única e última realidade capaz de produzir os heróis que salvam o corpo social da desgraça: a fé religiosa.

E também para a instituição humana que pode lhe fornecer a tábua de salvação: o exército.

Sim: fé e exército unidos inspiram e movem o fabrico dos heróis prontos para partir ao sacrifício supremo por algo que vai além de valores medianos: a pátria, a França, a fé.

Pouco valorizadas durante décadas, com os orçamentos cada vez mais recortados, objeto de incompreensões e escárnios, as forças armadas conseguiram transmitir seus valores de geração em geração de cadetes e soldados, manter elevado seu nível moral e defender com panache sua categoria.

Foi um verdadeiro milagre, diz de Rague.

Até os políticos mudaram a linguagem e passaram a reconhecer o papel capital dos uniformados na defesa material do país e no rearmamento moral dos franceses.

General Henri Pinard Legry: “os franceses tomaram consciência do que é que é o heroísmo em ação”
General Henri Pinard Legry: “os franceses tomaram consciência
do que é que é o heroísmo em ação
O general Henri Pinard Legry, presidente da Associação de apoio ao exército escreveu: “os franceses tomaram consciência do que é que é o heroísmo em ação (...) a coragem e a abnegação […], de geração em geração só foram possíveis porque cada soldado aos 18 anos optou por servir até o sacrifício de sua vida se for necessário”.

Jamais neste século as armas francesas ficaram de tal maneira engajadas no “front” de combate interior e nos mais variados cenários de conflito no exterior. O inimigo invasor já não vem só de fora: ele está dentro, bem armado, organizado e fanatizado por uma religião assassina por natureza.

“Não se fabrica heróis, mas militares para servir o país”, explica o coronel Brulon, do estado maior do exército, “mas alguns acabam sendo-os, sem escolher as circunstâncias”.

O coronel Beltrame quis ser paraquedista para pular nas costas do adversário no Iraque, foi covardemente assassinado e post-mortem ganhou a Cruz ao Valor Militar.

Vendo os terroristas islâmicos na Franca quis se oferecer como refém para poupar simples cidadãos sequestrados e acabou sendo degolado.

Seu exemplo acordou a sociedade comodista. Diante de milhões de telas, a Franca chorou seu filho.

A França sentiu que jamais teve tanta necessidade de heróis.

De gente que escolhe estradas que estão fora da norma.

O soldado da elite da marinha Pierrepont era chefe de um grupo de comando quando caiu em Burquina-Faso combatendo o Estado Islâmico.

Bertoncello se especializou no contraterrorismo e na liberação de reféns.

Um coronel do Estado Maior ressaltou ser necessário apresentá-los à juventude como “dois modelos, duas encarnações da esperança”.

A França jamais teve tanta necessidade de heróis.
A França jamais teve tanta necessidade de heróis.
Um antigo chefe de regimento de forças especiais comentou: “Entre nós, se você cai, há 50 heróis que aparecem”.

O herói não se preocupa em ser herói. Ele quer o sentimento do dever cumprido.

Pertencer a unidades de elite é uma provação até para as famílias. Nelas, fala-se com veneração dos que deram até o último suspiro.

Voltar à vida de família pode parecer sem graça após ter vivido entre os perigos da missão.

Mas, todos escolheram essa vida voltada para os outros à procura do absoluto e da superação de si próprio, glosa o articulista.

Eles procuram em verdade uma vida mais intensamente humana. E esse é o ponto comum de todos os heróis inscrito no brasão dos paraquedistas: “Para além do possível”.

Ou como constata o escritor Sylvain Fort: “para o herói o absoluto passa por cima do relativo”.

Ele desfere um desmentido doloroso aos que só veem em torno de si realidades sem substância.

Porque o herói, militar ou santo, é o modelo exemplare de homem por excelência encravado no mais fundo do imaginário coletivo, conclui a reportagem.


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Maioria de fiéis acredita em anjos e demônios, mas púlpitos silenciam. Por quê?

Anjo tira do pecado e leva a Nossa Senhora
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Para 77% dos adultos americanos, a existência e atividade dos anjos em torno dos homens é uma verdade muito real.

Foi o que revelou uma enquête da Associated Press e da GfK, após ouvir 1.000 pessoas no mês de dezembro.

Anjo, protetor contra o demônio. Simone Martin
Para 88% dos consultados, a fonte dessa convicção é a religião cristã, noticiou há tempos a agência CNSNews.

Mas a crença nos anjos é compartilhada pela maioria dos não cristãos.

Inclusive mais de quatro de cada 10 americanos que jamais assistem a um serviço religioso acreditam na existência dos espíritos, celestes ou infernais.

Análoga sondagem feita em 2006 constatou que 81% acreditavam na existência e ação dos anjos na Terra.

A tendência para crer neles está aumentando.

Diabo: único beneficiado com o silêncio
Em maio de 2011, 92% dos adultos disseram ao Gallup que acreditavam em Deus.

Porém, 34% responderam a análoga sondagem da Associated Press e da Ipsos dizendo que também acreditavam nos fantasmas e nos discos voadores, aliás muitas vezes ligados aos anjos infernais.

Contudo, se a gente fosse calcular a proporção de pregações dos púlpitos católicos sobre tão fundamental questão, o resultado seria provavelmente decepcionante.

Essa omissão pode ter efeitos trágicos no discernimento dos fiéis quanto à influência dos anjos bons e dos demônios.

Nessa confusão só o pai da mentira tira proveito.