terça-feira, 3 de agosto de 2021

‘Vida virtual’ no lockdown freia crescimento, causa miopia, crises psiquiátricas e brigas familiares

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A faixa de onda de luz azul das telas digitais confunde o cérebro e bloqueia a produção da melatonina, que é o hormônio do sono.

“O transtorno de sono é o primeiro sintoma do excesso de uso das telas”, explica Evelyn Eisenstein, especialista do Grupo de Trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), segundo reportagem do “O Estado de S.Paulo”.

“As crianças estão em desenvolvimento e o hormônio de crescimento é liberado após o período de 1 a 2 horas de sono profundo. Se elas não dormem, ou vão dormir tarde, estão exaustas e, portanto, produzem menos hormônio de crescimento”, observa.

Ao acordar padecem de sonolência diurna, problemas de memória e concentração durante o aprendizado, e transtornos ligados ao déficit de atenção e hiperatividade.

Problemas  de atenção e frustrações comportamentais
Problemas  de atenção e frustrações comportamentais
A empresária Fabiana Moura viu que o tempo de tela de sua filha Beatriz, de 13 anos, aumentou pelo menos 80% durante a pandemia.

A adolescente ficou mais irritada, ansiosa e com problemas de insônia. “Sem falar no sedentarismo, no prejuízo para a postura e para a visão.”

A visão das crianças pode ser muito prejudicada pela rotina online e o dano é maior quanto mais novas elas são.

Estudo publicado na revista médica JAMA Ophthalmology, da Associação Médica Americana (AMA), aponta que a miopia é o mal para a saúde dos olhos que mais se acentuou durante a pandemia.

Na China outro estudo em mais de 123 mil crianças entre 6 e 13 anos, constatou que no isolamento aumentou em 400% a prevalência de miopia em crianças com 6 anos de idade.

Nos participantes com 7 anos, o aumento foi de 200% e, aos 8 anos, de 40%.

Beatriz passou a faixa de maior risco, mas teve de ir ao oftalmologista durante a quarentena.

“Ele indicou à jovem usar os dispositivos eletrônicos por um período de 40 minutos seguidos e depois dar um descanso”, explica a mãe.

Porém, “durante o período de aulas virtuais, ou longas lives, não existe a possibilidade de fazer esses intervalos”, reclama.

Excesso de tela e 'lives' induz miopia
Excesso de tela e 'lives' induz miopia
O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), esclarece que, a miopia acomodativa é decorrente do excesso de esforço visual para enxergar de perto.

A primeira medida para controlar a miopia causada pelo estilo de vida é intercalar atividades ao ar livre e exposição ao sol durante o uso dos eletrônicos, inclusive durante a pandemia.

O médico destaca que a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é evitar mais de duas horas ininterruptas diante de uma tela durante a infância.

Por sua vez, o uso indiscriminado de fones de ouvido em volumes altos pode causar trauma acústico e perda auditiva induzida.

O Hospital de Cincinnati, nos EUA analisou o caso de 47 crianças entre 3 e 5 anos. Descobriu que aquelas que usam telas digitais em excesso têm menos mielina no cérebro, uma substâncias cuja ausência está relacionada a uma maior dificuldade de alfabetização e linguagem menos variada, registrou “A Folha de Pernambuco”.

“Essas descobertas alertam sobre os efeitos da tela no cérebro para que formuladores de políticas e pais estabeleçam limites saudáveis”, diz o pediatra John Hutton, autor do estudo.

Aliás, a Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda o uso das telas digitais para menores de 2 anos. Entre 2 e 5 anos, o tempo máximo é de uma hora por dia. Maiores de 5 podem usar por, no máximo, duas horas.

Depressões com efeitos diversos
Depressões com efeitos diversos
Um estudo indiano calculou que na pandemia o abuso das telas LCD se agravou muito. Cerca de 65% dos pequenos viciados em dispositivos são incapazes de se independizarem ao menos por 30 minutos, recolheu a Revista Crescer.

Eles choram, expressam raiva e não ouvem os pais que pedem parar de usá-los.

Os médicos do Hospital JK Lone, em Jaipur, estudaram o impacto da quarentena na saúde das 203 crianças — 55% meninos e 45% meninas.

Os pais esclareceram que as crianças usavam celulares, laptops, computadores e tablets disponíveis em casa.

Durante o lockdown 65,2% delas teve problemas físicos, 23,40% ganharam peso, 26,90% sofreram dores de cabeça/irritabilidade e 22,40% relataram dores nos olhos e prurido.

70,70% dos estudantes com alta exposição de tela estão enfrentando problemas comportamentais, 23,90% abandonaram suas rotinas, 20,90% se descuidaram, 36,80% ficaram teimosos e 17,40% reduziram sua capacidade de prestar atenção.

Quase todas as crianças duplicaram ou triplicaram o tempo diante da tela, e reduziram a atividade física.

50% delas acusaram dificuldades em dormir e 17% acordam no meio da noite e levam 20 a 30 minutos para voltar a dormir.

Também sofreram de sonolência diurna e cansaço durante o dia. Queixas de mudança de comportamento foram relatadas em dois terços das crianças.

Crianças indianas testemunham fico aborrecido, perdi amigos e maestros, meus pais esqueceram de mim, com a caneta era melhor, não esclarece dúvidas, esqueci minha escola, etc
Crianças indianas testemunham: 'fico aborrecido', 'perdi amigos e maestros', 'meus pais esqueceram de mim',
'com a caneta era melhor', 'não esclarece dúvidas', 'esqueci minha escola', etc
A maioria das escolas envolveu crianças em aulas online por 1 a 8 horas (em média 3 horas) por dia e cerca de 38% das famílias tiveram que comprar um novo dispositivo, fato que lhes causou encargos financeiros.

O estudo concluiu que a quarentena produziu um impacto negativo significativo causando um sono de baixa qualidade, distúrbios psiquiátricos e discórdia entre pais e filhos.

A psicóloga Anamika Papriwal constatou que a briga familiar por aparelhos eletrônicos se tornou comum durante o home office.

“Eu recebo telefonemas regulares de famílias que enfrentam comportamentos erráticos de seus filhos. Eles compartilham suas histórias angustiantes”, narrou.


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