terça-feira, 1 de setembro de 2020

Platão ensinava mais e melhor que o computador

Solidão e perplexidades não resolvidas diante da tela.
Solidão e perplexidades não resolvidas diante da tela.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Platão (427-347 a.C.), o filósofo grego que triunfa no topo dos melhores mestres da humanidade, defendia a primazia da oralidade sobre o escrito, sobretudo quando a letra em tinta prejudica o relacionamento entre professores e alunos.

Nunca foi possível encontrar um estímulo mais belo para o ensino, e falamos do moderno também, que a comunicação moral e intelectual entre o mestre e o discípulo.

“O intercambio oral recíproco é uma ocupação séria; disse Nietzsche, escrever é apenas um jogo”.

Por isso, a educação a distância, que alguns acham ideal, seria um desastre, argumenta o filósofo Philippe Nemo, diretor da Faculdade de Paris, autor de inúmeros livros sobre o tema, em artigo para “Le Figaro”.

As novas mídias eletrônicas e a Internet, em nome da modernidade, podem substituir a Escola e o Professor?

Se alguém se apoia na definição de ensino dada por Santo Agostinho em De Magistro, que não envelhece há mil e seiscentos anos, o ensino consiste em dirigir o olhar do estudante para a verdade. E isso requer sobre tudo fala, tempo e adequação ao olhar do principiante.

Platão privilegiou desenvolver oralmente as potencialidades do aluno.
Platão privilegiou desenvolver oralmente as potencialidades do aluno.
Diz-se que isso seria possível com o tele-ensino, mas observa o diretor da Faculdade de Paris que citamos, os argumentos em contrário ganham de longe.

A escola tradicional continua sendo essencial, antes de tudo, por permitir a formação de grupos de colegiais e mestres que se frequentam durante vários anos.

Isso desempenha um insubstituível papel nas motivações para aprender, estimula a imitação e emulação, desde que o mestre garanta a palavra aos bons alunos e não aos desordeiros.

Por outro lado, a escola desenvolve não só pela inoculação de dados, mas pela vida coletiva em que as personalidades se descobrem e afloram.

Os jovens deixados sozinhos em frente das telas só encontram afinidades em grupos de pares que se fazem e desfazem fugazmente sem deixar marca.

O processo de ensino só pode ser realizado normalmente se for guiado por um mestre que conhece o todo e os detalhes do conhecimento a ser transmitido e, portanto, é capaz de garantir a correção do caminho.

Nas telas, todos os tipos e de todas as fontes de imagens, vídeos, sons e informações aparecem e desaparecem a qualquer momento sem ordem nem estabilidade.

Assim que alguém pronuncia as palavras “Pequim”, “Acrópole” ou “ácido desoxirribonucléico”, imediatamente uma representação 3D, uma fórmula aparece na tela, com novos links para novas janelas, agitando um caleidoscópio que impossibilita a assimilação metódica que permita uma eficaz compreensão e ciência.

São Bernardino (1380 – 1444), teólogo de Siena e superior dos franciscanos, ensinou que o doente do estômago deve tomar o remédio indicado pelo médico. Mas, se lhe ocorre escolher ele o remédio no livro, acabará tomando um para a cabeça e que não serve.

Mutabilidade na tela impossibilita a assimilação metódica e eficaz
Mutabilidade na tela impossibilita a assimilação metódica e eficaz
Assim é o aprendizado do aluno obediente com o mestre. Se engolir sem saber o que está na tela, pode lhe fazer mal ou não adiantar de nada.

Sem dúvida, cursos on-line podem ser organizados com alunos que, já tendo adquirido a estrutura intelectual de uma disciplina, podem assimilar o novo conteúdo que as telas transmitem.

Mas essa automação do aprendizado não pode render bons frutos com alunos do ensino médio cujas estruturas intelectuais ainda não foram ordenadas.

Essa ordenação requer muitos anos. Deve ser pensada em sua totalidade e só pode ser implementada por professores de uma instituição escolar que garanta a continuidade.

Se a escola e o professor passarem para um segundo plano ou desaparecerem, a estruturação das mentes se tornará impossível.

Com justiça, Platão é tido como o primeiro pedagogo.

Como diz Sérgio Augusto Sardi, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul: “Platão pensava em termos de uma busca continuada da virtude, da justiça e da verdade.

A ciência moderna deve-se a mentes brilhantes formadas numa tradição pedagógica que vem sem solução de continuidade dos sábios da Antiguidade, passando pelas faculdades medievais e os grandes doutores e literatos até os dias atuais.

Nós não devemos apenas fornecer informações, isso pode fazer a Internet.

Santo Agostinho ensinando em Roma, Benozzo Gozzoli (1421 - 1497).
Santo Agostinho ensinando em Roma, Benozzo Gozzoli (1421 - 1497).
Nosso dever é pôr ordem nas mentes dos jovens – ou seja, formar os líderes que serão “bem-sucedidos”, em lugar de produzir gente empanturrada de dados mal assimilados ou desorganizados. Numa palavra intoxicados e o pensamento desarticulado.

Esse processo exige uma vida social estudantil. No secundário, é necessário apresentar em pequenas turmas o conhecimento elementar e, em seguida, ordenar metodicamente o conhecimento passo a passo até que o edifício seja totalmente construído.

Esse processo pode ser enriquecido por meios eletrônicos. Mas a escola e o professor devem permanecer donos deles.

Se entrarem em segundo plano ou desaparecerem, a estruturação das mentes se tornará impossível e, portanto, a casa nunca se elevará acima dos primeiros andares.

A visão clássica de uma iniciação metódica à ciência no ensino médio tem sido minada pelas novas pedagogias, que sabemos agora que trouxeram apenas esterilidade intelectual à escola pública francesa e uma preocupante queda no nível educacional, registra o diretor da Faculdade de Paris.

Certamente é por isso que as “novas pedagogias” adoram as “novas tecnologias” que lhes re-incendeiam a paixão pela loucura.

Essas forças destrutivas não acabam dando certo. Mais uma razão para proteger nossas escolas feitas na medida e na proporção do ser humano.


Um comentário:

  1. Margarida Maria Alves Torres2 de setembro de 2020 18:24

    TRABALHEI COM ENSINO A DISTANCIA, E MA ALTERNATIVA, MAS NAO PARA T5ODO TIPO DE ALUNO, E TIPO DE APRENDIZAGEM,E O QUE EU COORDENEI NAO ERA TOTALMENTE AQ DISTANCIA, ERA SEMI INDIRETO, E DESTINAVA-SE A PROFESSORES PARA COMPLEMENTAR, POS GRAQDUAR,POREM PARA CRIANÇAS, E INVIAVEL, NOS TINHAMOS ENCONTROS MENSAIS, ATENDIMENTO COM O MONITOR DE PLANTAO DOIS DIAS NA SEMANA,OS MODULOS ERAM BASEADOS NA AUTO APRENDIZAGEM, VINHAM PRONTOS, MUITOO BOM, AS AVALIAÇOES ERAM PRESENCIAIS.

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