terça-feira, 13 de abril de 2021

Neurocientistas detectam estragos mentais da “vida digital”

Cinco neurocientistas passaram um mês numa região remota e agreste para experimentar males dos artefatos digitais
Cinco neurocientistas passaram um mês numa região remota e agreste
para experimentar males dos artefatos digitais
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Cinco neurocientistas americanos passaram um mês numa região remota e agreste do estado de Utah, para tentar compreender o quanto o uso intenso de artefatos digitais e outras tecnologias cibernéticas mudam o modo pensar e a conduta dos homens.

Eles queriam ver também se um retiro ajuda a reverter os maus efeitos.

A experiência foi em 2010, porém hoje seus resultados estão cada vez mais atuais, sobre tudo com a dependência dos dispositivos virtuais estimulada pela pandemia. A reportagem foi publicada no The New York Times.

Na região escolhida não há antena para celulares e os emails não chegam.

Os especialistas deixaram os laptops na cidade e partiram para uma “viagem ao coração do silêncio” através do rio San Juan que atravessa canhões inóspitos.

Os professores descobriram que dormiam melhor, mesmo em regime de acampamento, e perderam a ansiedade para consultar incessantemente o celular.

David Strayer, professor de psicologia da Universidade de Utah, observou que a atenção, a memória e o aprendizado dos cidadãos modernos estão afetados.

As pessoas perdem a capacidade de prestar atenção, disse. Mas, “a atenção é o ‘Santo Graal’ do problema”, explicou Strayer. “Tudo aquilo que está na sua consciência, tudo o que é lembrado ou esquecido depende dela”.

Para Strayer o estudo ajuda a resolver uma nova gama de doenças além de outras agravadas pelo uso pesado da informática. 

Estímulos digitais diários intensos, explicou o cientista, “dão às pessoas a ideia que estão O.K. quando na realidade elas estão ingressando na categoria de pessoas psicologicamente não saudáveis”. Para Strayer, o problema não é menos grave que o consumo excessivo de álcool ou da obesidade.

Paul Atchley, professor da Universidade de Kansas, estuda o uso compulsivo de celulares pelos adolescentes.

Para ele o uso continuado da informática inibe o pensamento profundo, causa ansiedade, danos diversos à saúde e dependência.

A maré de dados ininterruptos cria uma falsa sensação de urgência que afeta a capacidade das pessoas para focalizar com objetividade os fatos, disse Strayer.

O especialista observou aquilo que o mais simples humano de outrora conhecia, isto é, que a natureza refresca o cérebro.

Na experiência “nossos sentidos mudaram. Eles se reequilibraram. Você presta atenção nos sons, nos grilos cantando, no rumor do rio, nos aromas. Você fica mais conectado com o ambiente que te rodeia, com a terra, antes que com o ambiente artificial da eletrônica”.

“Isto é o que chamavam de férias. É algo restaurador”, acrescentou Todd Braver, professor de psicologia na Washington University de St. Louis (EUA), descobrindo o “ovo de Colombo”.

O National Institute of Health criou uma divisão especializada em estudar as áreas do cérebro atingidas pelas tecnologias audiovisuais.

Os estudos do comportamento mostraram que as pessoas engajadas no multitasking têm perda de produtividade.

“A expectativa de receber e-mails parece consumir partes da memória ativa”, elucida Steven Yantis, chefe do departamento de Ciências Psicológicas e Cerebrais da Johns Hopkins, que estuda os efeitos de surfar entre várias tarefas simultaneamente.

“Com menos memória ativa, você tem menos espaço para guardar e assimilar ideias e, portanto, de fazer os raciocínios que você precisa”, acrescenta o professor Art Kramer, da Universidade de Illinois, que chefia estudos neurológicos que atraíram verbas de dezenas de milhões de dólares.

No fim do dia, os especialistas põem em comum suas sensações
No fim do dia, os especialistas põem em comum suas sensações
Os professores foram registrando suas experiências em longas conversas permeadas de períodos de silêncio, passeios a pé ou em canoa, ou observação do voo dos falcões.

Eles notaram que as ideias fluem num ritmo que mais parecia com o passar das águas do rio.

“Há verdadeira liberdade mental quando você sabe que ninguém vai vir te interromper”, disse Braver.

Qualquer monge medieval teria explicado isto e muito melhor, mas foi preciso chegar ao século XXI para redescobrir esta verdade elementar.

Os outros também comentavam que a viagem foi mais útil que se tivessem ido a hotéis, por vezes lotados de clientes.

“O tempo foi ficando mais lento”, constatou Kramer que de início não conseguia sair sem levar um celular satelital pois aguardava a confirmação via email de um financiamento de 25 milhões de dólares para uma de suas pesquisas.

E os 25 milhões? “Eu não me preocupava com eles. Nem pensava neles”, disse, reconhecendo que, no fundo, era uma preocupação improcedente, pois a aprovação da verba não dependia de sua preocupação.

Na experiência “nossos sentidos mudaram. Eles se reequilibraram
No segundo dia, ele descobriu que estava recolhendo com vagar sua tenda e que perdera a sensação de urgência que o dominava.

Kramer anotou que o grupo ficou muito mais refletido, tranquilo, voltado para a realidade que o rodeava. “Se eu aparecesse assim no trabalho, o pessoal acharia que eu ando desligado”, gracejou.

Braver abandonou o consumo obsessivo do cafezinho e esqueceu-se de ligar o relógio, embora lá não tivesse celular.

Strayer, tido como “crente” na tecnologia, reflexionou: “E se nós concluímos que o pessoal anda fatigado e não aproveita seu potencial cognoscitivo? O que é que poderemos fazer para lhes devolver suas capacidades plenas?” 


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