quarta-feira, 17 de maio de 2017

Professora da Sorbonne denuncia ditadura sutil e implacável da mídia

Ingrid Riocreux, professora na Universidade da Sorbonne, Paris
Ingrid Riocreux, professora na Universidade da Sorbonne, Paris
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A professora da Sorbonne Ingrid Riocreux lançou o livro La langue des médias, destruction du langage et fabrication du consentement (A língua da mídia. A destruição da linguagem e o fabrico do consenso, Editions du Toucan, 336 págs)

Ela foi entrevistada pela BSCNews e descreveu seu itinerário intelectual. Quando ditava cursos de retórica para futuros jornalistas na Sorbonne, optou por haurir exemplos da mídia mais acatada.

Ela foi a primeira a ficar surpresa, porque se deparou com um modo de falar típico dos jornalistas. Esse é construído com fórmulas feitas, com uma sintaxe e slogans que embutem um “pré-pensamento” que condiciona a intelecção dos leitores.

A professora Ingrid se considera membro da “geração 21 de abril” de 2002, data em que o candidato da direita Jean Marie Le Pen tirou do segundo turno o candidato socialista Lionel Jospin.

Naquela época, ela não se interessava pela política e não sabia o que tinha acontecido. Mas subitamente deparou-se com seus colegas de estudo em crise, chorando e deblaterando contra os “cúmplices do fascismo”. “Le Pen – esbravejavam eles – é como Hitler!”

E Ingrid achou que esse modo de reagir era abusivo e bestificante. Ela percebeu algo profundamente errado na linguagem da mídia, que determinava reações mal encaixadas. A singularidade do fato lhe entrou pelos olhos e ela começou a refletir.

Agora que é professora na famosa Sorbonne, conclui que a mídia está continuamente querendo impor às pessoas o que estas têm que pensar sobre este ou aquele assunto.

A grande mídia quer definir qual é o pensamento autorizado e qual não, no fundo e na forma.

A professora então quis abrir os olhos dos alunos, mas estes lhe respondiam: “Na televisão, eles falam desse jeito”.

Ingrid percebeu que falava para jovens criados sem pensamento crítico. Eles reagiam como que hipnotizados pelos slogans da grande mídia. E sobre assuntos tão diversos como imigração, mudanças climáticas, condições das mulheres, pedagogia, costumes, direitos humanos, etc.

Essa ideologia não se reduz à doutrina deste ou daquele partido, mas funciona como um dogma. Todo o mundo tem que acertar o passo com ele, ainda que só na aparência, de medo a ser excluído do convívio.

Em poucas palavras, uma Inquisição que persegue o pensamento individual e pune quem viola o dogma por ela concebido.

Essa Inquisição reprime quem pensa diferente. Porque esse "crime" põe em perigo a submissão ao dogma oficial midiaticamente definido.

'A língua da mídia, a destruição da linguagem
e o fabrico do consenso', o livro de Ingrid Riocreux.
É uma polícia do pensamento que não condena à morte quem julga por si próprio.

Mas exige que cada indivíduo se humilhe e recite seu ato de contrição para poder fazer uma vida normal.

Se o dissidente continuar com ideias próprias, ele passará a ser desacreditado. Tudo o que diga será recebido com derrisão por princípio.

Essa Inquisição midiática emite condenações morais.

Quem não pensar como ela será acusado de racista, de “extremista de direita” – no Brasil, de “tefepista” – e condenado a um exílio intelectual.

Essa Inquisição – o IV Poder referido por Carlos de Laet – passa por cima das fronteiras políticas. Ele funciona como o regente da consciência dos indivíduos e das coletividades, da moral, do senso do bem e do mal – aliás, ateu – da nossa época.

Para a professora da Sorbonne, há uma conduta totalitária dos jornalistas. Eles vão atrás dos “desvios” daqueles que não afinam com a onipresente Inquisição, como a "polícia do pensamento" de Orwell.

Dita conduta é ensinada desde as escolas de jornalismo, com senhas identificadoras e sistemas de pressão enormes.

Mas hoje atingimos o fundo do poço. Então, é pouco dizer que a opinião pública se desinteressa do que espalha a mídia.

Por isso, hoje há uma desconfiança em relação à mídia, observa a professora da Sorbonne. É até negócio para um político fazer-se detestar por grandes grupos informativos e aparecer como vítima da imprensa.

Trump se fez eleger em grande parte com esta estratégia. Hoje a mídia adotou esdruxulamente o método do tiro pela culatra: quando mais elogia alguém, mais o afunda, e quanto mais o critica, mais o faz subir, ainda que não o queira.

Chega-se assim ao fenômeno das chamadas “mídias alternativas” ou “não conformistas” que, falando através de blogs, sites caseiros ou redes sociais gratuitas, tiram um enorme benefício.

O público que não confia na grande mídia vai procurar a informação nessas “mídias alternativas”, as quais até geram outros problemas ao inspirarem excessiva confiança.

Mas, independentemente das críticas que lhe possam ser feitas, o Davi “alternativo” está jogando por terra o “Golias” macromidiático.

Ingrid recomenda uma sã desconfiança em relação a qualquer fonte de informação e um estímulo ao espírito crítico.

A professora da Sorbonne conclui que há “um verdadeiro menosprezo da grande mídia por todos nós. Ela [a mídia] aborrece essa gentalha [nós], que considera retrógrada e temerosa, reacionária face ao progresso e minada pelas más inclinações (conservadorismo, etc.)”.

“A mídia considera um dever corrigir nossa natureza vilã, e quer nos reeducar”, concluiu.


Vídeo: TEXTO





A tirania da imprensa segundo Carlos de Laet. Um texto histórico

O grande pensador católico Carlos de Laet, Presidente da Academia Brasileira de Letras, em conferência feita no dia 8 de maio de 1902, no Círculo Católico da Mocidade do Rio de Janeiro:

“Tirania da imprensa! Sim, tirania da imprensa... Agora está lançada a palavra, le mot est lancé... Nescit vox missa reverti, não volta atrás o que já se disse, e remédio não tenho senão justificar a minha tese.

Senhores, uma das grandes singularidades dos tempos atuais, é que os povos vivem a combater fantasmas de tiranias, e indiferentes às tiranias verdadeiras.

As evoluções derribam monarcas, que às vezes são magnânimos pastores de povos.

Antigamente cortavam-lhes as cabeças, mas hoje nem sequer essa honra lhes fazem: contentam-se com despedi-los, fazem-nos embarcar a desoras, porque sabem que já poucos são os reis cônscios da sua missão providencial e do seu dever de resistência...

Por outro lado, apregoa-se a tirania do capital; e, adversa a todo capitalista e a cada empresário, está uma turba fremente preste a tumultuar, quando julga menoscabados os seus direitos...

E todavia, senhores, o povo ainda não compreendeu que uma das maiores tiranias que o conculcam é a da imprensa; e, longe de compreendê-lo, antes a reputa uma salvaguarda dos seus interesses e a vindicatriz de seus direitos. É contra este sofisma que ora me insurjo.

Que é tirania, senhores?

Omnis definitio periculosa, diziam os escolásticos; mas creio não errar definindo tirania o indébito e opressivo poder exercido por um, ou por poucos, contra a grande maioria dos seus conterrâneos.

Ora, esta definição maravilhosamente quadra ao chamado poder da imprensa. 

Sim, ela é o poder de poucos sobre a massa popular. 

Contai o número imenso de homens que não figuram, que não podem figurar na imprensa, uns porque lhes faltam aptidões, outros por negação a esse gênero de atividade, outros porque não têm dinheiro ou relações que lhes abram as portas dos jornais.

Contai, por outra parte, o minguado número de jornalistas, - e dizei-me se não se trata de uma verdadeira oligarquia, do temeroso predomínio de um pugilo, de um grupinho de homens sobre a quase totalidade do seus concidadãos.

E que poder exerce esse grupo minúsculo? Enorme.

A imprensa pode, efetivamente, influir no governo de um país, constituindo aquilo que já se chamou o quarto poder do Estado”.

(O frade estrangeiro e outros escritos, Edição da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 1953, pp. 80-81).


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