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O sono da razão e da Fé em Lutero e em sequazes produziu monstros.
Francisco Goya, (1746-1828). Museu do Prado, Madri. |
continuação do post anterior: Lutero não e não
Não compreendo como homens de Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas etc.
Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia?
Ausente do mundo só estaria – se até lá se pudesse chegar – a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça.
Sobre Lutero – a quem caberia, sob certo aspecto, o papel de ponto de partida nessa caminhada para a balbúrdia total – publico hoje mais alguns tópicos que bem mostram o odor que sua figura revoltada espargiria nesse supermercado ou melhor, nesse necrotério de religiões, de filosofias, e do próprio pensamento humano.
Segundo em anterior artigo prometi, tiro os da magnífica obra do padre Leonel Franca S.J.,
“A Igreja, a Reforma e a Civilização” (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1934, 558 pp.).
Elemento absolutamente característico do ensinamento de Lutero é a doutrina da justificação independente das obras.
Em termos mais chãos, que os méritos superabundantes de Nosso Senhor Jesus Cristo só por si asseguram ao homem a salvação eterna.
De sorte que se pode levar nesta terra uma vida de pecado, sem remorsos de consciência, nem temor da justiça de Deus.
A voz da consciência era, para ele, não a da graça, mas a do demônio!
1. Por isso escreveu a um amigo que o homem vexado pelo demônio, de quando em quando “deve beber com mais abundância, jogar, divertir se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias (...)
“Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo” (M. Luther,
“Briefe, Sendschreiben und Bedenken”, e,
De Wette, Berlim, 1825 1828 cfr. op. cit., pp. 199 200).
2. Neste sentido, escreveu ele também:
“Deus só te obriga a crer e a confessar. Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazeres o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes e certo que, de si, Ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum.
“E que se lhe dá (a Deus), se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?” (
“Werke”, ed. de Weimar, 12, pp. 131 ss. cfr. op. cit., p. 446).
3. Talvez ainda mais taxativo é este incitamento ao pecado, em carta a Melanchton, de 1° de agosto de 1521:
“Sê pecador, e peca a valer (
esto peccator et pecca fortiter), mas com mais firmeza ainda crê e alegra te em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo.
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Segundo Lutero, o triunfo de suas ideias religiosas
trouxe a expansão de todos os vícios.
Detalhe de "O Triunfo da Morte", de Pieter Brugel. |
“Durante a vida presente devemos pecar. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo.
“Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por, dia mil homicídios e mil adultérios (“Briefe, Sendschreiben und Bedenken” ed. De Wette, 2, p. 37, cfr. op. cit. p. 439).
4. Tão descabelada é esta doutrina, que o próprio Lutero a duras custas nela conseguia acreditar:
“Nenhuma religião há, em toda a terra, que ensine esta doutrina da justificação; eu mesmo, ainda que a ensine publicamente, com grande dificuldade a creio em particular” (
“Werke”, ed. de Weimar, 25, p. 330 cfr. op. cit., p. 158).
5. Mas os efeitos devastadores da pregação assim confessadamente insincera de Lutero, ele mesmo os reconhecia:
“O Evangelho hoje em dia encontra aderentes que se persuadem não ser ele senão uma doutrina que serve para encher o ventre e dar larga a todos os caprichos” (
“Werke”, ed. de Weimar, 33, p. 2 cfr. op. cit., p. 212).
E Lutero acrescentava, acerca de seus sequazes evangélicos, que “são sete vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio (o papado) e vieram sete piores” (
“Werke”, ed. de Weimar, 28, p. 763 cfr. op. cit., p.440).
“Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem (...)
“E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem” (
“Werke”, ed. de Weimar, 27, p. 443 cfr. op. cit., p. 441).
6. Todas essas insânias explicam que Lutero chegasse ao frenesi do orgulho satânico, dizendo de si mesmo:
“Este Lutero não vos parece um homem extravagante? Quanto a mim, penso que ele é Deus. Senão, como teriam os seus escritos e o seu nome a potência de transformar mendigos em senhores, asnos em doutores, falsários em santos, lodo em pérolas!” (
ed. Wittemberg, 1551, t. 4 p. 378 cfr. op. cit., p. 190).
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Fac-símile do artigo "Lutero pensa que é divino".
Folha de S.Paulo 10-01-1984. Acervo Folha |
7. Em outros momentos, a opinião que Lutero tinha de si mesmo era muito mais objetiva:
“Sou um homem exposto e implicado na sociedade, na crápula, nos movimentos carnais, na negligência e em outras moléstias, a que se vêm ajuntar as do meu próprio ofício” (
“Briefe, Sendschreiben und Bedenken”, ed. De Wette, 1, p. 232 cfr. op. cit., p. 198).
Excomungado em Worms em 1521, Lutero entregou se ao ócio e à moleza. E a 13 de julho escreveu a outro prócer protestante Melanchton:
“Eu aqui me acuo, insensato e endurecido, estabelecido no ócio, oh dor!, rezando pouco e deixando de gemer pela Igreja de Deus, porque nas minhas carnes indômitas ardo em grandes labaredas.
“Em suma, eu que devo ter o fervor do espírito, tenho o fervor da carne, da libidinagem da preguiça, do ócio e da sonolência” (
“Briefe, Sendschreiben und Bedenken”, ed. De Wette, 2, p. 22 cfr. op. cit., p. 198).
Num sermão pregado em 1532: “Quanto a mim confesso – e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão – que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via, outrora” (
“Saemtliche Werke”, ed. de Plochman Irmischer, 28(2), p. 353 cfr. op. cit., p. 441).
O que de comum se pode encontrar, pois, entre esta moral, e a da Santa Igreja Católica Apostólica Romana?
(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, Folha de S.Paulo, 10-01-1984)
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O Pe Leonel Franca nasceu em 7-1-1893, em São Gabriel, RS.
Ingressou na Companhia de Jesus em 12-11-1908.
Em 1912 foi estudar filosofia na Universidade Gregoriana, Roma,
onde recebeu o título de Doutor em Teologia (1924).
Durante sua estadia na Cidade Eterna
publicou “A Igreja, a Reforma e a Civilização” (1923).
Em 1928, fundou a Universidade Católica de Rio de Janeiro,
da qual foi Reitor magnífico durante oito anos.
Rendeu sua alma a Deus em 3-9-1948. |
O protestantismo evangélico segundo seus fundadores, pelo Pe. Leonel Franca S.J.
ANEXOS:
Plinio Corrêa de Oliveira
Lutero: não e não
Lutero pensa que é divino
