quinta-feira, 1 de março de 2012

Nem Maastricht comemorou aniversário do euro

Mitterrand e Kohl: o tempo do idílio franco-alemão ficou para trás
 As autoridades de Maastricht – cidade holandesa onde se assinou o tratado que instituiu o euro – não convidaram os arquitetos da moeda para comemorar o 20º aniversário da criação do euro, informou o jornal “Valor”.

Há meia década eles festejaram o aniversário com uma série de eventos que duraram todo o ano. Desta vez “tivemos dúvidas”, disse prudentemente Jean Bruijnzeels, secretário municipal de Finanças. É que o euro está na base da crise que convulsiona as 17 nações que o adotaram.

A Holanda foi um dos países mais defensores da nova moeda, mas agora passou a euforia enganosa. E a angústia financeira revela falhas que acenam com uma catástrofe. Na própria Holanda é crescente e agressivo o movimento contra a moeda-símbolo da utopia malsã.

Merkel e Sarkozy: nuvens pretas se avolumam no horizonte
“Nós poderíamos olhar para o euro como um projeto falido”, disse Hans Googervorst, ex-ministro da Fazenda e presidente do Comitê de Padrões Contábeis Internacionais, em recente entrevista à televisão. O ministro da Fazenda holandês dissera o mesmo poucos dias antes.

Pesquisas mostram que a maioria dos holandeses prefere abandonar a moeda. Até 2009, o apoio ao euro permanecia em 80%.

O partido de direita “Liberdade” mudou o foco de sua propaganda. Não mais privilegia tirar os estrangeiros da Holanda, mas o euro. E com isso não para de crescer nas pesquisas e no Parlamento.

“O que é surpreendente é que a questão de manter o euro era realmente uma discussão de malucos; agora ela é amplamente discutida”, disse Johan Van Overtveldt, autor do livro The End of the Euro (O Fim do Euro).

Eurozona em farrapos
Agora muitos economistas holandeses se revelam profetas silenciados e denunciam problemas da moeda comum que eram ignorados ou ridicularizados. Arjo Klamer diz: “Eu previ que o euro cairia até 2010”. Klamer leciona na Universidade Erasmus, em Roterdã.

“O tratado [de Maastricht] dentro de alguns anos vai levar à criação daquilo que os criadores da Europa moderna sonharam depois da guerra, os Estados Unidos da Europa”, declarou euforicamente na época o chanceler alemão Helmut Kohl. A maioria dos economistas na época do tratado de Maastricht achava que a união monetária abriria as portas para a união política.

Kohl insistia que a Itália deveria ser um membro fundador, muito embora o país não atingisse o critério orçamentário. Uma vez que a endividada Itália foi incluída, não havia argumentos para excluir a Grécia, que gastava muito. Assim os buracos no “Titanic” monetário não pararam de crescer.

Hoje até líderes defesores do euro estão repensando o assunto. Reynier van Bommel, o nono diretor-presidente de uma empresa familiar de calçados que leva seu nome, diz que as diferenças culturais dentro da Europa e a resultante disparidade de produtividade tornam a moeda única irreal.

Poucos querem ver o museu com o tratado fundador do pesadelo
Ruud Lubbers, ex-primeiro-ministro holandês e anfitrião da cúpula de Maastricht, que havia classificado os resultados então obtidos como sendo as maiores conquistas alcançadas em sua carreira, disse este mês que o tratado do euro foi “incompleto”.

Em Maastricht, uma pequena exibição mostra a mesa de carvalho usada por uma das delegações que assinaram o desastroso tratado. Um vídeo apresenta os líderes chegando e saindo. “Nós estamos mostrando tudo isso como história”, diz perplexo Adrian Himmelreich, o curador da exibição. “Mas nós não sabemos ainda se estamos do lado certo ou errado dela.”



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