terça-feira, 18 de novembro de 2008

De ponta-cabeça

Numa das inesperadas noites frias que açoitaram São Paulo no último mês, já disposto a envolver-me nos cobertores, retirei uma última mensagem eletrônica.

Certo amigo, entre perplexo e indignado, encaminhou-me notícia estarrecedora. Em Belo Horizonte, um advogado construiu duas casas: uma de ponta-cabeça, e outra deitada de lado. Tudo foi pensado, projetado e pago para ser assim. As fotografias não deixam dúvida.

Mas o disparate vai mais longe: a decoração interna também é de cabeça para baixo!

Confesso que, quando li a mensagem, fiquei bastante atordoado. Resolvi então pesquisar um pouco mais, e encontrei na Internet fotos de casas análogas construídas na Alemanha, França, Estados Unidos. Chocado com tais absurdos, deitei-me e apaguei a luz. Custei a conciliar o sono.

* * *

Fui assaltado por terrível pesadelo. Vi-me conduzido à força por seqüestradores encapuzados, que me aprisionaram numa dessas casas. Trancaram a porta e deixaram-me isolado dentro. Comecei a circular de um cômodo para outro, e vi tudo ao contrário. Nada tinha lógica, a lei da gravidade parecia ter-se invertido, nada estava de acordo com seu sentido próprio. Tudo o que deveria estar embaixo encontrava-se em cima, e vice-versa.

Sonhei que estava sentindo um forte mal-estar, a única maneira de evitar aquela tortura mental era renunciar ao meu modo de ver o mundo e aceitar como normal a casa invertida, com todo seu non-sense, adaptando-me inteiramente àquele ambiente oposto à ordem natural.

Em meio ao sonho, uma misteriosa “voz” aliciante me dizia que meus “seqüestradores” desejavam apenas (!) roubar-me a razão, e me levar a aceitar a loucura como normal. Mas eu não queria absolutamente renunciar à minha normalidade de ser humano racional e lógico. Nisso uma outra “voz”, em conformidade com minha razão, disse que se eu me sentisse enquadrado naquele ambiente invertido, renunciaria à minha fé católica, pois tudo o que é ordenado, lógico, belo, decorre de Deus, que criou a natureza humana. E gritei: “Renunciar à minha fé e aceitar a loucura?! Jamais!”.

Com isso, procurava — ainda sonhando — um meio de sair daquela casa louca, ainda que devesse romper com as próprias mãos uma janela ou parede. Com essa intenção, indignado, percorria a casa.

Assustado, acordei com o coração disparado.

Após o café da manhã, saí de meu apartamento em direção ao local onde trabalho. Contudo, o tormento das casas de cabeça para baixo não abandonava minha mente. Na rua, notei pela primeira vez um homem barbado vestindo uma saia, com toda naturalidade. Pensei: isso está na linha da casa de ponta-cabeça...

Peguei um ônibus, no qual chamou-me a atenção uma senhora sentada, folheando uma revista com fotos de penteados femininos que formavam caras de bichos estranhos no alto da cabeça, o que dava a idéia de a pessoa possuir duas fisionomias. As moças da revista, essas modelos anoréxicas subnutridas de hoje em dia, pareciam figuras bárbaras de um passado muito remoto. As cabeças de bichos (que não pensam) estavam acima das cabeças humanas que pensam. Refleti: isso também está na linha da casa de ponta-cabeça...

Passei em frente a uma loja de lustres. O que vejo? Um lustre com forma de tênis! Pensei: a luz provir de um calçado! Casa de ponta-cabeça...

Como compreender tudo isso? Como considerar o fato de o público geralmente demonstrar indiferença diante de tais aberrações?

Não foi difícil chegar a uma tentativa de explicação: tudo acontece como se houvesse a intenção de enlouquecer o ser humano, ostentando o absurdo com naturalidade. O fruto desse enlouquecimento seria a quebra, na mente dos homens, de

todo padrão de ordem da natureza e de ordem cristã que a Santa Igreja inspirou e fomentou ao longo de séculos, em conformidade com nosso Criador.

A marcha do afastamento em relação a Deus leva o homem a perder a noção de certo e errado, de bem e mal, de belo e horrendo, considerada a partir das verdades da fé e da própria Lei natural. Privados das normas da razão, da lógica e dos princípios religiosos, o homem torna-se inclinado a aceitar todos os absurdos, que se opõem à Lei natural e à Lei de Deus, pois ficará indiferente a tudo. Com isso, o absurdo, o aberrante, o disparatado parecer-lhe-ão normais. Assim deformadas as mentes, poderão ser aprovadas leis que subtraiam direitos os mais fundamentais e imponham costumes os mais loucos.



Casas construídas com o telhado rente ao solo e o piso no lugar do teto, nas quais se entra pelas janelas, situando-se as portas no alto. São meras extravagâncias? Ou sinais da perda da luz da razão?


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Um comentário:

  1. O mundo e valores das pessoas estão de cabeça para baixo.

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